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44-JAN FEV MAR 2010
 



Apagão: você também pode ter o seu
Por Viviane Marques


Instalações elétricas merecem cuidados profissionais

Síndico do edifício Toulon, em Botafogo, Paulo Poppe resolveu reformar a parte elétrica de seu apartamento, um ano atrás. Descobriu que o buraco estava, literalmente, mais embaixo: era preciso uma reforma geral das instalações do condomínio, construído na década de 1960. Na época, o uso residencial de energia resumia-se à iluminação dos cômodos e a alguns poucos aparelhos, como geladeira, rádio e, às vezes, televisão. Será que edifícios das décadas de 1940 a 1970 prepararam suas instalações para suportar a demanda atual por energia, com moradores usando arcondicionado, computador, home-theater e TVs em todos os cômodos? Como saber se é preciso uma reforma geral?

Assim como no Toulon, o desgaste das instalações elétricas costuma ocorrer sem Manutenção por Viviane Marques Apagão: você também pode ter o seu Instalações elétricas merecem cuidados profissionais maiores alardes. Apenas quando a situação começa a ficar incômoda, isto é, começa a haver queda de tensão por desarme do disjuntor, a solução mais corriqueira é improvisar um aumento de carga. Eletricistas (muy) amigos sugerem aos síndicos de edifícios antigos instalar um disjuntor mais potente (40 ou 60 amperes, unidade que mede a intensidade da corrente elétrica) para “segurar” o antigo (de 30 A) e acabar com a falta de luz. No entanto, trata-se de prática perigosa e ilegal, passível de multas e processo por parte da concessionária de
energia (veja boxe com mais detalhes).

“Com 20 anos de vida é preciso revisar todas as instalações elétricas, do PC (quadro geral) ao interior dos apartamentos. Calculo que 90% dos prédios de bairros mais antigos da cidade têm cabeamento original”, avalia o engenheiro eletricista Marcelo Poça, da Eletrosena Serviços Ltda. Ele alerta que em prédios sujeitos à ação da maresia, o prazo pode ser menor. “Além de corroer fios e PCs, a umidade salina é condutora de eletricidade, ou seja, quando instalada gera aumento no consumo”, diz o engenheiro, que já vistoriou prédios na Barra da Tijuca, bairro com construções recentes cujos PCs encontravam-se totalmente corroídos pela maresia e, pasmem!, pelo enxofre gerado pela poluição no Canal de Marapendi.

Não basta trocar só o PC e deixar que cada unidade se responsabilize pela substituição da fiação até o apartamento Até porque um incêndio causado por curto-circuito não atinge apenas o morador que deixou de fazer a troca. E, no caso de acidentes, o condomínio tem responsabilidade civil, sendo considerado “solidário” ao infrator, pois nesse tipo de sinistro é difícil identificar onde, exatamente, o fogo começou.

Além de evitar choques e curtos-circuitos, os condomínios devem fazer uma revisão geral de suas instalações em nome da economia nos gastos. Fiações e cabeamentos antigos quase sempre geram desperdícios, que refletem num valor de conta mais alto do que o consumo real do morador.“Pode ocorrer de a fiação entre o relógio e o apartamento ter fios desencapados dentro do condutor de ferro. Isso não causa curtocircuito, mas gera escape de eletricidade. A pessoa paga por algo que não está usando. Modernizar é economizar. A pessoa sente a diferença até na qualidade da energia que está consumindo”, explica Poça.

O engenheiro enumera, ainda, a possibilidade de eletrocussão como consequência da fiação antiga desgastada, já que as tubulações hidráulicas antigas também eram de metal, elemento que conduz eletricidade. Assim, caso o cano de água passe perto da fiação, existe a possibilidade de tomar um choque em pleno banho.

Embora o envelhecimento da fiação costume ser assintomático, alguns indícios podem denunciar que algo não vai bem, de acordo com Poça. São eles: queda de tensão (que pode ser causada por vários fatores, sendo o mau dimensionamento das instalações um deles), queima de fusíveis e de lâmpadas fluorescentes, desarme do disjuntor e aumento no valor da conta sem que o consumo tenha sido alterado.

Muitos síndicos encontram dificuldade para convencer os moradores da necessidade de troca das instalações. Afinal, a despesa fica em torno de R$ 1 mil, por unidade, para mudar algo que, aparentemente, funciona. Segundo Marcelo Poça, é possível dividir o pagamento em até dez parcelas, dependendo do tamanho do projeto. Para sorte do síndico Paulo Poppe, não houve problema com os moradores do Toulon, até porque a obra foi considerada emergencial e o valor empregado já estava reservado para uma obra na fachada - que acabou ficando para depois.

Apesar de ter reformado as instalações de sua unidade há um ano, só recentemente o síndico descobriu o risco que todos corriam. O eletricista que reformou as instalações de seu apartamento avisou que seria preciso mudar também a fiação do condomínio, já que os fios antigos são mais estreitos que os modernos. “Esperei ter uma folga no caixa e, no meio de 2009, quando o eletricista abriu as caixas de distribuição dos andares percebeu que o caso era sério e recomendou a contratação de uma firma especializada”, lembra. Em novembro passado, foram substituídos PC, cabos, fios e disjuntores de cada uma das 14 unidades. Para evitar a obra física e o consequente quebra-quebra (o que também encareceria a empreitada), os novos dutos passam pelo fosso do elevador.

Para prédios novos ou que tiveram suas instalações elétricas reformadas recentemente, o engenheiro Marcelo Poça recomenda uma revisão anual do PC e de todos os circuitos, de preferência no período do inverno. As altas temperaturas dilatam a fiação, deixando emendas e parafusos frouxos, de modo que o mau contato vai dificultando a passagem de energia. “Na manutenção, a empresa ou o profissional habilitado limpa os contatos, reaperta as conexões e revisa emendas e cabos”, descreve.

A fiscalização da adequação da carga de cada edificação, depois que um prédio fica pronto, é incumbência da concessionária de energia elétrica – no caso do Estado do Rio
de Janeiro, Light ou Ampla. “Para ampliar a carga, o condomínio deve apresentar um projeto à concessionária, feito por um responsável técnico com registro no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) que seja especialista. Para o projeto ser aprovado é preciso que o profissional tenha habilitação”, alerta Regina Moniz, da Câmara de Engenharia Elétrica do Crea-RJ.

A engenheira conta que, pessoalmente, já passou por uma situação em que um comerciante, seu vizinho, fez um “gato” (roubo de energia) de sua instalação trifásica para alimentar o ar-condicionado do estabelecimento. Ela lembra que é preciso que ar-condicionado e chuveiro elétrico tenham fases próprias. Caso contrário, além do risco dem subdimensionamento da instalação e de queda de tensão há o aumento no consumo. “Se fica tudo ligado numa mesma fase, há um desequilíbrio na conta”, explica ela, ressaltando a importância do engenheiro eletricista em reformas na parte elétrica. “Não é reserva de mercado, mas se o profissional não souber fazer cálculo, o consumidor corre o risco de curtos-circuitos e incêndio por sobrecarga”, alerta.

No mais, Regina avisa que fazer mudança de carga sem aval técnico é fraude com punição prevista na lei. A concessionária pode entrar com uma ação judicial, pois ao mascarar o consumo o condomínio ou morador está furtando energia. A engenheira explica que, nesses casos, a punição é fundamentada na Resolução 456 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão regulador das concessionárias, que vem a ser baseada no Artigo 6º do Código Penal Brasileiro (DL 2.848/1940, alterado pela Lei Federal 7.209/84). A resolução estabelece as condições gerais de fornecimento a serem seguidas tanto pelas prestadoras de serviço quanto pelos consumidores.

“Outros artigos do Código Penal também podem ser usados para processar o consumidor que mascara o relógio, até porque ele é de propriedade da concessionária, não do condomínio”, avisa a representante do Crea. Marcelo Poça, da Eletrosena, complementa: “As instalações atuais devem seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e da NR-10, do Ministério do Trabalho, uma norma regulatória que trata só de instalações elétricas e visa
preservar tanto estas quanto as pessoas, profissionais ou não.”

Mas para você, síndico, não ser obrigado a ficar decorando leis, vale o resumo da engenheira Regina: “Responsabilidade técnica é uma garantia para o consumidor e só os profissionais de engenharia têm conhecimento amplo de todas as normas a serem seguidas. A instalação mal dimensionada faz o consumidor correr o risco de ter seu consumo aumentado ou até causar um acidente, cujo reflexo pode ser uma falta de luz a quilômetros de distância, pois nosso sistema elétrico é de malhas. Já houve um acidente em Botafogo que deixou parte de Copacabana sem luz.” Ou seja, apagão, você também pode causar um.



 

 

 

 

 

 

 

 

Síndico do edifício Toulon, Paulo Poppe, ao reformar a parte elétrica de seu aparta mento , descobriu que o problema era muito maior: era preciso reformar as instalações do condomínio todo, erguido nos anos 1960.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Para ampliar a carga da edificação, o condomínio deve apresenta r um projeto à concessionária, feito por
um responsável té cnico com reg istro no Co nselho Reg ional de Enge nharia e Arquitet ura (Crea ) que seja especialista . Para o projeto ser aprovado é preciso que o profissional te nha hab ilita ção”, alerta Regina Moniz, da Câmara de Engenharia Elétrica do Crea-RJ

 


 

 

 

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