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As calçadas em mosaico de pedra portuguesa
da Avenida Atlântica são usadas
há mais de 50 anos nos folhetos turísticos
como um dos símbolos de identidade da
cidade do Rio de Janeiro. Em verdade, segundo
especialistas, é nossa cidade a detentora
da maior superfície de calçamento
musivo do mundo. Entretanto, esse tipo de
calçamento teve origem há mais de 160
anos, em Portugal, e em nosso país nem
ao menos foi o Rio de Janeiro a primeira
cidade que o possui.
Em Portugal, essas calçadas são conhecidas
como “calçadas portuguesas”. No Brasil,
são as “calçadas de pedras portuguesas”.
Há mais de dois mil anos os romanos
produziram delicados mosaicos nos pisos
da velha Lusitânia. Na cidade romana de
Conimbriga, atual Coimbra, foram encontradas
ruínas de palácios, termas e mansões
dotadas de imensos pisos de mosaico,
com desenhos fi gurativos de grande
expressão. Tais mosaicos estão em perfeito
estado de conservação e alguns ainda
brilham como se fosse obra recente. Após
o colapso do Império Romano, no século
V, essa arte andou esquecida pelos invasores
visigodos, mas outros invasores, os
muçulmanos, reintroduziram o mosaico na
Península Ibérica no século VIII.
Até o século XIX, eram comuns nas
vilas e cidades portuguesas os singelos
pisos e calçadas feitos com pequenos seixos
de rio, roliços, dotados de colorações
diferentes e que, por vez, eram instalados
para formar desenhos rústicos de linhas,
círculos, corações e letreiros pitorescos.
Com o terremoto de Lisboa, em novembro
de 1755, as calçadas dessa cidade foram
refeitas de grandes blocos de pedra, mas a
tradição continuou nas cidades do interior,
inclusive no Brasil - em Paraty e nas cidades históricas mineiras ainda existem prédios com
pisos e ruas calçadas desse material.
Em 1842, durante o reinado de D. Maria
II, a Intendência Geral da Polícia de Lisboa,órgão que cuidava não só do crime como da
manutenção das ruas, quando era seu chefe
o tenente-general José Pinheiro Furtado,
que também acumulava a função de governador
de Armas do Castelo São Jorge, reintroduziu
as calçadas de mosaico na capital
lusitana. Feitas com basalto preto e calcário
branco, agora não mais roliços mas cortados
mecanicamente com instrumentos, elas
eram instaladas para reproduzir desenhos
simples e graciosos, em zigue-zague e em
círculos. Nessa ocasião, surgiu o passeio
com desenho de ondas, que simbolizava o
encontro das águas do Rio Tejo com o oceano.
Essa estampa, muito apreciada na época
e que se tornaria símbolo de nossa cidade,
ganhou o nome de Mar Largo. O Largo do
Rocio foi um dos primeiros logradouros a
possuir o famoso calçamento, numa superfície
de mais de 8.700 m2.
As calçadas eram instaladas por prisioneiros
condenados a trabalhos forçados
chamados “grilhetas”, porque executavam
a tarefa acorrentados uns aos outros. A
moda se espalhou pelas cidades lusitanas.
Os antigos presos, depois de libertos, encontravam
trabalho agora como calceteiros,
o que ajudou muito o general Furtado
na reabilitação desses homens, que passaram
a ser requisitados por muitas cidades
lusitanas e até fora do país.
Ainda hoje existem calçadas de pedra
portuguesa em cidades insulares dos arquipélagos
da Madeira e dos Açores, bem
como nas ex-colônias africanas e até na
distante Macau.
Em Portugal, além das cores citadas
anteriormente, existem desenhos com pedras
vermelhas, marrons, castanhas e azuis,
estas as mais belas.
No Brasil, a novidade somente chegaria
quase 60 anos depois da metrópole
lusitana. A primeira calçada musiva com
desenho Mar Largo aqui executada parece
que foi a que circunda o Teatro Ópera de
Manaus. Realizada em 1900, ainda se encontra
em perfeito estado e precedeu em
cinco anos a do Rio de Janeiro.
Aliás, outras
cidades querem aparecer como tendo
mandado fazer calçadas desse tipo antes
das do Rio de Janeiro, como Curitiba, mas
as informações não batem.
No Rio de Janeiro, a decisão de introduzir
esse calçamento partiu do prefeito
Pereira Passos durante seu mandato, tendo
em 1904 contratado em Portugal 33 calceteiros
e comprado lotes de pedras portuguesas
para aplicar nos novos logradouros
que estava reformando ou abrindo na velha
urbe carioca. Pouco depois, ele mandou
vir mais 170 homens de Lisboa. Entretanto,
nenhuma calçada de pedra portuguesa
foi realizada antes de novembro de 1905,
quando a primeira de todas foi inaugurada
na Avenida Central (desde 1912 Avenida
Rio Branco), próximo à atual Praça Mauá.
Calçamento caro, importado e de difícil
execução, o prefeito Passos resolveu cobrar,
em maio de 1905, uma taxa de 25%
sobre o imposto predial dos edifícios que
dessem frente para tais calçadas, mas a reação
popular pela imprensa foi contrária e
violenta, sendo revogada a medida.
Assim sendo, quando a Avenida Central
foi inaugurada, em 15 de novembro daquele
ano, apenas um pequeno trecho de
calçamento estava pronto. No dia da festa,
muito chuvoso, a maioria das calçadas da
rica avenida ainda era de terra, na ocasião
convertida pelo aguaceiro em imenso lamaçal.
O atraso da obras do calçamento irritou
o engenheiro Paulo de Frontin, chefe da
Comissão de Obras da Avenida Central, que
no dia anterior à inauguração mandou recolher
as montanhas de pedras portuguesas
acumuladas na via e atirá-las ao mar. Em
1928, ao dar seu depoimento a uma revista,
Paulo de Frontin chegou a declarar que, nas obras da Avenida Central, o prefeito Pereira
Passos “mais atrapalhou que ajudou”.
Seja como for, o calçamento continuou a
ser executado, e em junho de 1906, já estava
pronto. Logo depois de Paulo de Frontin ter
jogado as pedras portuguesas ao mar, o prefeito
Passos passou a adquiri-las de pedreiras
locais em maior quantidade e qualidade.
De início, não existia unidade no design das
calçadas da grande avenida: em frente ao
Palácio Monroe, o desenho do passeio era
lindamente geométrico; entre o Convento
da Ajuda e o Theatro Municipal, curvilíneo,
que lembrava ornamentos estilo Luís XV; do
Municipal até a Rua São José era o desenho
Mar Largo, nosso conhecido; da Rua São José
até a Rua Visconde de Inhaúma, um lindo
desenho floral art nouveau; e dali até a Praça
Mauá, outro desenho à Luís XV. Muitas casas
comerciais tinham seus nomes estampados
na calçada, e os prédios mais importantes,
como os da futura Cinelândia, ganharam desenhos
próprios e brasões.À exceção das mulheres, que odiaram
as novas calçadas por destruir os saltos
de seus sapatos e que por isso preferiam
andar pelo meio da rua, a aceitação da novidade
foi geral e, antes de 1909, muitos
logradouros dos bairros da Zona Sul já as
possuíam e até luxuosas residências particulares
mandavam calçar seus acessos
com as novas pedras, cujos calceteiros se
esmeravam em produzir ornamentos cada
vez mais graciosos, que só podem ser conhecidos
por meio de foto, já que essas
mansões foram destruídas pela expansão
imobiliária dos anos 1930, 1940 e 1950.
As obras da Avenida Atlântica foram
iniciadas pelo prefeito Pereira Passos em
1905, mas, quando de sua inauguração,
em 1908, era bem diferente da atual. A
avenida possuía apenas quatro metros de
largura e nenhuma calçada. Ampliada em
1911 pelo prefeito Bento Ribeiro, sua largura
só foi uniformizada para 19 metros
e ganhou largo passeio oito anos depois,
em 1919, quando Paulo de Frontin, prefeito,
completou a obra em menos de seis
meses e mandou calçar os passeios com
pedras portuguesas de modo que formasse
o desenho Mar Largo, que logo se tornou a
marca registrada do bairro. Depois de uma
forte ressaca, em 1921, seu sucessor, Carlos
Sampaio, mandou refazer o mesmo desenho,
assim como Prado Júnior por idêntico
motivo, três anos depois.
Depois de 1935, durante a Era Vargas,
num momento de exacerbado nacionalismo,
o prefeito Cônego Olímpio de Melo solicitou
que se executassem calçadas com desenhos
inspirados na arte indígena tradicional do
Brasil. Desse modo, os arquitetos da prefeitura
J. S. Azevedo Neto e Marisa Portugal
Milward projetaram passeios com estampas
inspiradas na arte marajoara da Amazônia,
tendo sido a Praia Vermelha calçada, em
1937, com essa novidade, que durou até os
anos 1960, quando ainda pude conhecê-la.
Por ocasião do quarto centenário da
cidade do Rio de Janeiro, o Lions Clube de
Vila Isabel sugeriu, em agosto de 1964, que
os passeios do Boulevard 28 de Setembro
fossem calçados com desenhos que reproduzissem
partituras de músicas famosas
brasileiras. A administração regional local
solicitou que o músico e pesquisador Henrique
Foreis - o Almirante - selecionasse o
repertório, ficando para o maestro Carto la a simplificação das partituras, para que
pudessem ser mais bem reproduzidas no
piso. O arquiteto do Estado da Guanabara
Orlando Magdalena fez os projetos, colocando
ao lado de cada partitura o nome
do compositor e o instrumento musical
que lhe era afeto. Foram selecionadas 20
músicas, depois reduzidas para 14. Dessa
forma, em 1965, o bairro de Vila Isabel foi
o primeiro no mundo a possuir tal tipo de
calçamento, hoje tombado pela municipalidade
como bem artístico da cidade.
Nos anos de 1967 e 1968, a cidade foi
sacudida por agitados conflitos de rua,
principalmente na área central, promovidos
por estudantes e o povo que reivindicavam
o restabelecimento do estado democrático
no país, ora suprimido. Como a Polícia Militar
reprimia com extrema violência esses
protestos, os estudantes usavam as pedras
do calçamento da Avenida Rio Branco
como petardo contra os soldados. Tais pedrinhas,
pontudas, tinham efeito espetacular
nos capacetes de aço, principalmente
quando atiradas do alto dos prédios. Com
isso se perdeu todo o calçamento primitivo
dos passeios da avenida.
Os arquitetos do Estado da Guanabara
desenvolveram então um desenho curvilíneo
mais simplificado, moderno, que foi
aplicado na avenida e nos demais logradouros
reformados naquela ocasião, como
os passeios da Avenida Chile.
Como a Avenida Atlântica não dava
mais vazão ao crescente tráfego automobilístico,
o Estado da Guanabara resolveu
ampliá-la em 1968. A velha avenida de 19
metros da época de Frontin seria fechada
e transformada em um enorme calçadão,
e um grande aterro seria realizado, com o
avanço da linha do mar para a abertura de
duas novas pistas. Sob o calçadão central
divisionário das citadas pistas seria instalado,
no subterrâneo, o novo interceptor oceânico,
previsto para recolher todo o esgoto
tratado da cidade e jogá-lo quatro quilômetros
mar adentro.
Para delinear o novo calçamento do
passeio foi contratado o paisagista Roberto
Burle Marx, que projetou o maior mosaico
do mundo. Na calçada perto da praia seria
mantido o desenho Mar Largo, triplicado
em tamanho e posto longitudinalmente.
Nas calçadas divisionárias e no calçadão,
Burle Marx projetou um desenho abstrato,
nas cores preta, branca e vermelha, que
simboliza as três etnias que formaram o
povo brasileiro. Todo o desenho da Avenida
Atlântica foi pensado para ser apreciado de
avião, formando a maior composição moderna
da Terra. A obra foi executada rapidamente
- em 1970 o bairro do Leme já
estava pronto e no ano seguinte era a vez
de a vizinha Praia de Copacabana ser entregue.
O calçadão fez imenso sucesso e é
conhecido hoje em todo lugar.
Na década de 1980, esse passeio e outros
mais antigos foram tombados pela
municipalidade como bens inalienáveis
da cidade. Contudo, na década seguinte,
a prefeitura do Rio moveu intensa guerra,
sob alegação de que era um pavimento
caro e de difícil manutenção e limpeza. Foi
por isso que, quando as obras do projeto
Rio Cidade foram feitas em Copacabana,
boa parte da calçada da Avenida Nossa Senhora
da Copacabana, ainda não tombada,
foi removida e substituída por um desenho
em estilo art déco, feito de quadrados de
cimento e poucas pedras portuguesas,
concebido pelo arquiteto Luís Paulo Conde,
obra que mereceu críticas.
Hoje ninguém pensa mais em substituir
nossos passeios de mosaico português.
Pelo contrário, muitos cariocas cobram do
poder público sua instalação em logradouros
e desde há algum tempo também se
tornou comum vê-los em pisos de lojas,
shoppings e residências. Se alguma horda
bárbara assolar o Rio de Janeiro em anos
vindouros, como ocorreu com a velha
Conimbriga dos romanos, com certeza os
arqueólogos do futuro encontrarão entre
os destroços os pavimentos musivos de
nossas ruas e saberão que ali existiu uma
grande e bela cidade.
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