44-JAN FEV MAR 2010
 


As calçadas em mosaico de pedras
portuguesas do Rio de Janeiro
Por Milton Mendonça Teixeira

As calçadas em mosaico de pedra portuguesa da Avenida Atlântica são usadas há mais de 50 anos nos folhetos turísticos como um dos símbolos de identidade da cidade do Rio de Janeiro. Em verdade, segundo especialistas, é nossa cidade a detentora da maior superfície de calçamento musivo do mundo. Entretanto, esse tipo de calçamento teve origem há mais de 160 anos, em Portugal, e em nosso país nem ao menos foi o Rio de Janeiro a primeira cidade que o possui.

Em Portugal, essas calçadas são conhecidas como “calçadas portuguesas”. No Brasil, são as “calçadas de pedras portuguesas”. Há mais de dois mil anos os romanos produziram delicados mosaicos nos pisos da velha Lusitânia. Na cidade romana de Conimbriga, atual Coimbra, foram encontradas ruínas de palácios, termas e mansões dotadas de imensos pisos de mosaico, com desenhos fi gurativos de grande expressão. Tais mosaicos estão em perfeito estado de conservação e alguns ainda brilham como se fosse obra recente. Após o colapso do Império Romano, no século V, essa arte andou esquecida pelos invasores visigodos, mas outros invasores, os muçulmanos, reintroduziram o mosaico na Península Ibérica no século VIII. Até o século XIX, eram comuns nas vilas e cidades portuguesas os singelos pisos e calçadas feitos com pequenos seixos de rio, roliços, dotados de colorações diferentes e que, por vez, eram instalados para formar desenhos rústicos de linhas, círculos, corações e letreiros pitorescos. Com o terremoto de Lisboa, em novembro de 1755, as calçadas dessa cidade foram refeitas de grandes blocos de pedra, mas a tradição continuou nas cidades do interior, inclusive no Brasil - em Paraty e nas cidades históricas mineiras ainda existem prédios com pisos e ruas calçadas desse material.


Em 1842, durante o reinado de D. Maria II, a Intendência Geral da Polícia de Lisboa,órgão que cuidava não só do crime como da manutenção das ruas, quando era seu chefe o tenente-general José Pinheiro Furtado, que também acumulava a função de governador de Armas do Castelo São Jorge, reintroduziu as calçadas de mosaico na capital lusitana. Feitas com basalto preto e calcário branco, agora não mais roliços mas cortados mecanicamente com instrumentos, elas eram instaladas para reproduzir desenhos simples e graciosos, em zigue-zague e em círculos. Nessa ocasião, surgiu o passeio com desenho de ondas, que simbolizava o encontro das águas do Rio Tejo com o oceano.

Essa estampa, muito apreciada na época e que se tornaria símbolo de nossa cidade, ganhou o nome de Mar Largo. O Largo do Rocio foi um dos primeiros logradouros a possuir o famoso calçamento, numa superfície de mais de 8.700 m2. As calçadas eram instaladas por prisioneiros condenados a trabalhos forçados chamados “grilhetas”, porque executavam
a tarefa acorrentados uns aos outros. A moda se espalhou pelas cidades lusitanas. Os antigos presos, depois de libertos, encontravam trabalho agora como calceteiros, o que ajudou muito o general Furtado na reabilitação desses homens, que passaram a ser requisitados por muitas cidades lusitanas e até fora do país.

Ainda hoje existem calçadas de pedra portuguesa em cidades insulares dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, bem como nas ex-colônias africanas e até na distante Macau. Em Portugal, além das cores citadas anteriormente, existem desenhos com pedras vermelhas, marrons, castanhas e azuis, estas as mais belas. No Brasil, a novidade somente chegaria quase 60 anos depois da metrópole lusitana. A primeira calçada musiva com desenho Mar Largo aqui executada parece que foi a que circunda o Teatro Ópera de Manaus. Realizada em 1900, ainda se encontra em perfeito estado e precedeu em cinco anos a do Rio de Janeiro.

Aliás, outras cidades querem aparecer como tendo mandado fazer calçadas desse tipo antes das do Rio de Janeiro, como Curitiba, mas as informações não batem. No Rio de Janeiro, a decisão de introduzir esse calçamento partiu do prefeito Pereira Passos durante seu mandato, tendo em 1904 contratado em Portugal 33 calceteiros e comprado lotes de pedras portuguesas para aplicar nos novos logradouros que estava reformando ou abrindo na velha urbe carioca. Pouco depois, ele mandou vir mais 170 homens de Lisboa. Entretanto, nenhuma calçada de pedra portuguesa foi realizada antes de novembro de 1905, quando a primeira de todas foi inaugurada na Avenida Central (desde 1912 Avenida Rio Branco), próximo à atual Praça Mauá. Calçamento caro, importado e de difícil execução, o prefeito Passos resolveu cobrar, em maio de 1905, uma taxa de 25% sobre o imposto predial dos edifícios que dessem frente para tais calçadas, mas a reação popular pela imprensa foi contrária e violenta, sendo revogada a medida.

Assim sendo, quando a Avenida Central foi inaugurada, em 15 de novembro daquele ano, apenas um pequeno trecho de calçamento estava pronto. No dia da festa, muito chuvoso, a maioria das calçadas da rica avenida ainda era de terra, na ocasião convertida pelo aguaceiro em imenso lamaçal. O atraso da obras do calçamento irritou o engenheiro Paulo de Frontin, chefe da Comissão de Obras da Avenida Central, que
no dia anterior à inauguração mandou recolher as montanhas de pedras portuguesas acumuladas na via e atirá-las ao mar. Em 1928, ao dar seu depoimento a uma revista, Paulo de Frontin chegou a declarar que, nas obras da Avenida Central, o prefeito Pereira Passos “mais atrapalhou que ajudou”.

Seja como for, o calçamento continuou a ser executado, e em junho de 1906, já estava pronto. Logo depois de Paulo de Frontin ter jogado as pedras portuguesas ao mar, o prefeito Passos passou a adquiri-las de pedreiras locais em maior quantidade e qualidade. De início, não existia unidade no design das calçadas da grande avenida: em frente ao Palácio Monroe, o desenho do passeio era lindamente geométrico; entre o Convento da Ajuda e o Theatro Municipal, curvilíneo, que lembrava ornamentos estilo Luís XV; do Municipal até a Rua São José era o desenho Mar Largo, nosso conhecido; da Rua São José até a Rua Visconde de Inhaúma, um lindo desenho floral art nouveau; e dali até a Praça Mauá, outro desenho à Luís XV. Muitas casas comerciais tinham seus nomes estampados na calçada, e os prédios mais importantes, como os da futura Cinelândia, ganharam desenhos próprios e brasões.À exceção das mulheres, que odiaram as novas calçadas por destruir os saltos de seus sapatos e que por isso preferiam andar pelo meio da rua, a aceitação da novidade foi geral e, antes de 1909, muitos logradouros dos bairros da Zona Sul já as possuíam e até luxuosas residências particulares mandavam calçar seus acessos com as novas pedras, cujos calceteiros se esmeravam em produzir ornamentos cada vez mais graciosos, que só podem ser conhecidos por meio de foto, já que essas mansões foram destruídas pela expansão imobiliária dos anos 1930, 1940 e 1950.


As obras da Avenida Atlântica foram iniciadas pelo prefeito Pereira Passos em 1905, mas, quando de sua inauguração, em 1908, era bem diferente da atual. A avenida possuía apenas quatro metros de largura e nenhuma calçada. Ampliada em 1911 pelo prefeito Bento Ribeiro, sua largura só foi uniformizada para 19 metros e ganhou largo passeio oito anos depois, em 1919, quando Paulo de Frontin, prefeito, completou a obra em menos de seis meses e mandou calçar os passeios com pedras portuguesas de modo que formasse o desenho Mar Largo, que logo se tornou a marca registrada do bairro. Depois de uma forte ressaca, em 1921, seu sucessor, Carlos Sampaio, mandou refazer o mesmo desenho, assim como Prado Júnior por idêntico motivo, três anos depois.

Depois de 1935, durante a Era Vargas, num momento de exacerbado nacionalismo, o prefeito Cônego Olímpio de Melo solicitou que se executassem calçadas com desenhos inspirados na arte indígena tradicional do Brasil. Desse modo, os arquitetos da prefeitura J. S. Azevedo Neto e Marisa Portugal Milward projetaram passeios com estampas inspiradas na arte marajoara da Amazônia, tendo sido a Praia Vermelha calçada, em 1937, com essa novidade, que durou até os anos 1960, quando ainda pude conhecê-la. Por ocasião do quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro, o Lions Clube de Vila Isabel sugeriu, em agosto de 1964, que os passeios do Boulevard 28 de Setembro fossem calçados com desenhos que reproduzissem partituras de músicas famosas brasileiras. A administração regional local solicitou que o músico e pesquisador Henrique Foreis - o Almirante - selecionasse o repertório, ficando para o maestro Carto la a simplificação das partituras, para que pudessem ser mais bem reproduzidas no piso. O arquiteto do Estado da Guanabara Orlando Magdalena fez os projetos, colocando ao lado de cada partitura o nome do compositor e o instrumento musical que lhe era afeto. Foram selecionadas 20 músicas, depois reduzidas para 14. Dessa forma, em 1965, o bairro de Vila Isabel foi o primeiro no mundo a possuir tal tipo de calçamento, hoje tombado pela municipalidade como bem artístico da cidade.

Nos anos de 1967 e 1968, a cidade foi sacudida por agitados conflitos de rua, principalmente na área central, promovidos por estudantes e o povo que reivindicavam o restabelecimento do estado democrático no país, ora suprimido. Como a Polícia Militar reprimia com extrema violência esses protestos, os estudantes usavam as pedras do calçamento da Avenida Rio Branco como petardo contra os soldados. Tais pedrinhas, pontudas, tinham efeito espetacular nos capacetes de aço, principalmente quando atiradas do alto dos prédios. Com isso se perdeu todo o calçamento primitivo dos passeios da avenida. Os arquitetos do Estado da Guanabara desenvolveram então um desenho curvilíneo mais simplificado, moderno, que foi aplicado na avenida e nos demais logradouros reformados naquela ocasião, como os passeios da Avenida Chile.
Como a Avenida Atlântica não dava

mais vazão ao crescente tráfego automobilístico, o Estado da Guanabara resolveu ampliá-la em 1968. A velha avenida de 19 metros da época de Frontin seria fechada e transformada em um enorme calçadão, e um grande aterro seria realizado, com o avanço da linha do mar para a abertura de duas novas pistas. Sob o calçadão central divisionário das citadas pistas seria instalado, no subterrâneo, o novo interceptor oceânico, previsto para recolher todo o esgoto tratado da cidade e jogá-lo quatro quilômetros mar adentro.

Para delinear o novo calçamento do passeio foi contratado o paisagista Roberto Burle Marx, que projetou o maior mosaico
do mundo. Na calçada perto da praia seria mantido o desenho Mar Largo, triplicado em tamanho e posto longitudinalmente. Nas calçadas divisionárias e no calçadão, Burle Marx projetou um desenho abstrato, nas cores preta, branca e vermelha, que simboliza as três etnias que formaram o povo brasileiro. Todo o desenho da Avenida Atlântica foi pensado para ser apreciado de avião, formando a maior composição moderna da Terra. A obra foi executada rapidamente - em 1970 o bairro do Leme já estava pronto e no ano seguinte era a vez de a vizinha Praia de Copacabana ser entregue.

O calçadão fez imenso sucesso e é conhecido hoje em todo lugar. Na década de 1980, esse passeio e outros mais antigos foram tombados pela municipalidade como bens inalienáveis da cidade. Contudo, na década seguinte, a prefeitura do Rio moveu intensa guerra, sob alegação de que era um pavimento caro e de difícil manutenção e limpeza. Foi por isso que, quando as obras do projeto Rio Cidade foram feitas em Copacabana, boa parte da calçada da Avenida Nossa Senhora da Copacabana, ainda não tombada,
foi removida e substituída por um desenho em estilo art déco, feito de quadrados de cimento e poucas pedras portuguesas, concebido pelo arquiteto Luís Paulo Conde, obra que mereceu críticas.

Hoje ninguém pensa mais em substituir nossos passeios de mosaico português. Pelo contrário, muitos cariocas cobram do poder público sua instalação em logradouros e desde há algum tempo também se tornou comum vê-los em pisos de lojas, shoppings e residências. Se alguma horda bárbara assolar o Rio de Janeiro em anos vindouros, como ocorreu com a velha Conimbriga dos romanos, com certeza os arqueólogos do futuro encontrarão entre os destroços os pavimentos musivos de nossas ruas e saberão que ali existiu uma grande e bela cidade.

 


 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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