|
Estamos em 1949. Em um Rio de
Janeiro que ostentava o glamour de se
dizer “capital da República”, uma acalorada
plateia vibra em uníssono: "É a
maior! É a maior!". O coro vem do 21º
andar do portentoso edifício A Noite,
na Praça Mauá, mais precisamente do
disputadíssimo auditório da Rádio Nacional.
Os gritos saúdam Marlene, eleita
a Rainha do Rádio do ano e que vivia
um dos momentos mais vibrantes da
carreira. Talvez o maior.
Os tempos mudaram. O rádio, se não
saiu de cena, foi preterido pela TV. A interpretação
minimalista da bossa nova,
se não exterminou, representou um balde
de água fria na carreira dos cantores
e cantoras de vozeirão encorpado. Mas
a personalidade marcante de Marlene,
que tantos conquistou, parece que não
muda. Ela continua sendo - como se
fosse possível o contrário - uma artista
autêntica. Tão livre e dramática é sua
expressão que chegou a ser censurada,
ainda que por apenas 15 dias.
O DVD A Rainha e os Artistas do
Rádio, lançado no segundo semestre
de 2009 e gravado na Rádio Nacional,
mostra a atriz e cantora de sempre, interpretando
o que diz num repertório
de letras fortes, algumas de sua autoria,
outras cuidadosamente selecionadas.
Guarda na memória nada menos que
três mil músicas. Sua biografia está sendo
escrita pela jornalista Diana Aragão.
Marlene, lúcida e sensível, quer dialogar
sobre as questões da atualidade com as
novas gerações de artistas e de público.
Para minimizar sua angústia. “Não
aceito o que acontece - essa entregaàs drogas, os jovens chamando a morte
tão cedo. Nunca tirei férias. Férias são
para quem morre.”
Em novembro passado, Marlene
completou 87 anos de uma vida rica
de histórias e vitaminada pela música.
O blog www.cantoramarlene.blogspot.
com registrou muitas cartas de fãs, do
tipo: "Marlene é várias e nesse doce novembro
desejamos saúde, força e vitalidadeà maior artista do Brasil”, “Viva
Marlene! Seu lugar é no palco”, “Marlene,
se todos fossem iguais a você..."
A atriz Lydda Sanders, 83, protagonista
do filme Luar do Sertão, de 1949, diz
que “ficou de queixo caído com ‘o espetáculo
Marlene’ no Golden Room do
Copacabana Palace em 1947.”
Vitoria Bonaiutti de Martino, seu
nome de batismo, nasceu em uma família
italiana e evangélica em São Paulo
uma semana após o falecimento do pai.
Apesar de a ideia de se tornar cantora
não ser bem aceita em casa, sua estreia
profissional ocorreu bem cedo, aos 13
anos, no programa A Hora do Estudante,
da Rádio Bandeirantes de São Paulo.
Por algum tempo, cerca de seis meses,
fomos vizinhos de Marlene. Isso até
uma movimentação incomum em seu
apartamento deixar à mostra roupas
brilhantes de espetáculos, embaladas
junto a muitos tecidos, flores e adereços.
Marlene estava de mudança. Mas o
jeito autêntico e inteligente de ser, este
certamente não mudará.
Condomínio etc. - Quais são suas primeiras
lembranças relacionadas à música?
Marlene - São as cantigas de roda
japonesas, que cheguei a cantar nos anos
1950 no programa Gente que Brilha, dirigido
por Paulo Roberto na Rádio Nacional.
[Marlene cantarola, suavemente,
duas cantigas japonesas]. A música está
no sangue, fui criada ouvindo música sacra
e clássica. Mas o que me impulsionou
foram os hinos evangélicos, que ouvia e
cantava na Igreja Batista, em São Paulo.A primeira vez que pisei num palco foi
em um Natal, aos seis anos, dirigida por
minha irmã. Acho que a pessoa já nasce
com uma estrela, porque ninguém me
ensinou e minha família sempre foi contra.
Depois todo mundo me paparicou,
8 www.condominioetc.com.br mas no começo sofri muito preconceito.
Minha mãe, Antonieta, uma mulher muito
forte, foi a primeira diaconisa evangélica do
Brasil e um dia me disse: “Aproveita sua popularidade
e ajuda quem mais precisa.” Por
isso, em 1952, ela criou a Associação Benefi
cente dos Fãs de Marlene, com o objetivo
de fazer o Natal dos pobres em um morro
do Rio, que era sorteado e ganhava presentes
e alimentação. Eu já era uma artista
internacional quando minha mãe morreu e
nunca vi tanta gente em um velório.
Cetc. - É verdade que você adotou o
nome artístico de Marlene em homenagem
a Marlene Dietrich?
Marlene - Na verdade, quem escolheu
Marlene como nome artístico foi a Federação
dos Estudantes do Estado de São Paulo. Agora
se o nome foi escolhido por causa dela, sinceramente
não sei. Sugeriram Marlene e aceitei.
Podia até ser Anastácia, que é um nome bonito
também [risos]. Eu queria era cantar.
Cetc. - Sua geração teve o rádio como
principal veículo de comunicação. Ele
perdeu seu reinado, mas manteve o poder.
Qual o papel do rádio hoje, quando
vivemos o império da imagem? O jabá,
dinheiro que as gravadoras dão às rádios
para que toquem determinadas músicas,
funciona como uma censura econômica?
Marlene -O rádio continua a desempenhar
seu papel informativo, mesmo com
o apelo da imagem. Em meu tempo não
havia jabá, não que eu saiba..
Cetc. - João Gonçalves, assessor de
condomínios da CIPA e seu fã, pergunta:
por que você não está na mídia enquanto
artistas de pouco valor ocupam espaço?
Marlene - Não me sinto tão fora da
mídia. Sou procurada constantemente por
canais a cabo, jornais e revistas. Além disso,
acabo de lançar meu DVD/CD. Às vezes me
escuto na Rádio Nacional, Roquette Pinto,
MPB FM e MEC.
Cetc. - Outro fã, Vicente Rocha, paraibano
e animador cultural no Rio, era
macaco de auditório da Rádio Borborema
de Campina Grande. Ele pergunta:
Marlene, você tem noção da importância
de seu trabalho para a juventude
nordestina dos anos 1950?
Marlene –Não tenho a menor noção.
Sempre adorei o Nordeste... Eu tinha essa
capacidade de abrir caminhos, fui contra a
vontade da família. Sou vaidosa com meu trabalho. O que sinto no palco, faço. Eu
entrego. É uma entrega total. Minha vidaé um palco.
Cetc. - Você foi pioneira em muitos
aspectos da vida brasileira: a primeira
a gravar música de protesto; a gravar
Gonzaguinha; a se apresentar no
Olympia, de Paris; lançou a moda da
calça comprida feminina e foi símbolo
de elegância; única cantora tricampeã
do carnaval, tendo recebido o troféu
Carmen Miranda. Fale-nos dessa força,
do que mantém você acesa.
Marlene - A preocupação com a educação
e a felicidade de um povo, que é meu
povo, é que me mantém acesa. Se me visto
bem é por respeito ao público, para dar-lhe
uma alegria. Como diz Milton, “todo artista
tem de ir aonde o povo está”.
Cetc. - E Gonzaguinha, Marlene?
Marlene -Com os olhos úmidos,
as mãos no peito] Ele é tudo para mim,
o mais forte. Acho que foi apaixonado
por mim. O pai [Luiz Gonzaga] me perguntava:
por que você ama tanto meu
filho? Gonzaguinha fez O Galope para
mim. Que compositor fantástico!
Cetc. - O quanto da rivalidade entre
você e Emilinha Borba era marketing
e o quanto era real? É verdade
que você gravou duas canções com
ela (Eu Já Vi Tudo e Casca de Arroz)
por imposição da gravadora, para
amenizar a briga dos fãs?
Marlene -Tudo era real, não havia
marketing. Duas músicas não, gravei
várias. Participo do último trabalho
dela, em dueto, na música Entre Tapas e
Beijos, sucesso de Leandro e Leonardo.
Cetc. - Você que já foi dirigida por
Sidney Miller, Fauzi Arap, Hermínio
Bello de Carvalho, Miguel Falabella, Haroldo
Costa e Ricardo Cravo Albin; que
já cantou com Grande Otelo, Blecaute,
Gozanguinha, Joaõ Bosco, Marcos Sacramento, Ângela Maria, Peri Ribeiro;
que já participou de projetos como Seis
e Meia e Pixinguinha; como você vê o
atual momento musical brasileiro? O
que há de bom, belo e verdadeiro?
Marlene -A música brasileira está
sempre por aí, mas hoje tem alguma coisa
que salva, mas a grande maioria, não.
Gosto muito da Adriana Calcanhotto, da
Martinália e de Seu Jorge. Gosto também
de artistas como Gabriel, O Pensador e
AfroReggae porque eles retratam a realidade.
Adoraria conversar com eles. Sempre
dei valor às letras e fui muito atraída
pela realidade. A palavra é mais forte
que uma arma. Por isso eu cantava letras
como “lata d'água na cabeça...” Fui interna
em colégio por vários anos e depois,
quando quis conhecer a realidade, subia
todos os morros para ver o sofrimento
e a alegria. Vivia na Mangueira e no
Salgueiro. Era uma coisa curiosa. Muita
gente aqui, da classe média, se queixa.
Lá havia queixa, mas também muita alegria.
Chamei a atenção do povo brasileiro
para o morro, que hoje é respeitado.
Muitos artistas saíram do morro e se
tornaram estrelas, como Gonzaguinha,
que nasceu no Morro de São Carlos.
Chico Buarque era muito importante
para mim, mas acho que atualmente ele
se distanciou da realidade.
Cetc. - Se sua vida fosse encenada
em um musical, qual seria a canção
principal?
Marlene - Como uma Onda, de Lulu
Santos e Nelson Motta [ela recita a letra
que se torna poema].
Cetc. - E Edith Piaf em sua vida?
Marlene - Edith Piaf foi quem descobriu
minha dramaticidade. Ela dizia: “Você se esconde
muito atrás dessa brejeirice, debaixo
há uma dramática.” Hoje acho que quando
é carnaval, brejeirice cabe; fora disso, não.
Cetc. - Quem, no cenário musical de
hoje, representaria a continuidade de
seu estilo? A quem você entregaria o
posto simbólico de “A Maior” hoje?
Marlene – Ainda é cedo, estou observando.
Mas acho que ninguém teve minha
coragem.
Cetc. - O que ajuda a aprimorar o
gosto musical dos brasileiros?
Marlene – A educação e a observação.
Cetc. - Cinema, teatro, TV ou DVD?
Marlene –Gravar o DVD foi um trabalho árduo mas gratifi cante. Fiz uma novela
das sete, em 1981, O Amor É Nosso, mas
não gostei do ambiente, me esnobaram.
Teatro e cinema, eu sempre adorei. Por
exemplo, o fi lme A Volta do Filho Pródigo,
de Ypojuca Pontes, mexeu demais comigo
porque fi z uma velha louca, cega e muda.
Uma tragédia.
Cetc. - Embora o “r” não negue a naturalidade
paulista, você é carioquíssima
e mora há muitos anos em Copacabana.
Considera que o bairro é, neste sentido,
um microcosmo da realidade?
Marlene –Copacabana, com todas as
divergências, é uma grande família. O “oi,
oi” na rua dá uma intimidade! Nem precisa
conhecer as pessoas. Sou carioca mesmo,
recebi o título muito jovem e gosto daqui.
Cetc. - Marlene, o que aflige você?
Marlene – Fico triste com a precariedade
da vida hoje e com o que acontece
no Rio. Observo tudo e quero fazer alguma
coisa para ajudar a mocidade. O povo anda
tão sofrido com a violência, o narcotráfico.
O medo imperou. Por isso ando triste. Queria
meu Rio de Janeiro como eu conheci. O
antigo me dá prazer.
Cetc. - Como é ter 87 anos? Que tesouros
guarda na lembrança?
Marlene – Guardo na memória a alegria
de um povo. Sou carregada pelo entusiasmo
da vida. A música é a melhor companheira
que sempre tive. Mesmo de boca
fechada, eu canto.

A Associação Marlenista do Rio de Janeiro
(Amar), residida por Nieta Carvalho, iniciou suas
atividades no dia 20 de janeiro de 1986. Os objetivos
eram, inicialmente, assessorar, agenciar e
representar, juridicamente, Marlene em todos os
trabalhos artísticos, através de uma produção
exclusiva dedicada à artista.
Todo o acervo da artista foi doado à Amar
que, por não possuir sede, entregou parte dele
ao Instituto Cravo Albin e outra parte ficará
sob a guarda do Museu da Imagem e do
Som. Cézar Sepúlveda, um dos diretores da
associação que batalhou durante cinco anos
pelo DVD, dá o seguinte depoimento:
“Quando fui convidado para pesquisar a vida de Marlene
para o DVD/documentário fui a seu encontro e, ao abraçá-la, tive a
impressão de estar abraçando um cometa. Dei-me conta da dimensão do enigma
que é esta mulher singular. (...) Nesse fraterno abraço compreendi por que Marlene
chegou até hoje persona íntegra, completa. Ela é amalgamada pelo talento, e talento
é eterno. Nos tempos atuais, confusos e incertos, muitos acompanham sua
carreira, mas um grande número de pessoas não a conhece de fato, nem o que e o
quanto fez. Esse DVD registra a presença de uma das artistas mais fascinantes da
história do showbizz do Brasil."

|
|
 |
 |
 |




|