44-JAN FEV MAR 2010
 



Marlene, estrela da vida
Stella Maris Mendonça (smarismendonca@gmail.com)

Estamos em 1949. Em um Rio de Janeiro que ostentava o glamour de se dizer “capital da República”, uma acalorada
plateia vibra em uníssono: "É a maior! É a maior!". O coro vem do 21º andar do portentoso edifício A Noite, na Praça Mauá, mais precisamente do disputadíssimo auditório da Rádio Nacional. Os gritos saúdam Marlene, eleita a Rainha do Rádio do ano e que vivia um dos momentos mais vibrantes da carreira. Talvez o maior.

Os tempos mudaram. O rádio, se não saiu de cena, foi preterido pela TV. A interpretação minimalista da bossa nova,
se não exterminou, representou um balde de água fria na carreira dos cantores e cantoras de vozeirão encorpado. Mas
a personalidade marcante de Marlene, que tantos conquistou, parece que não muda. Ela continua sendo - como se fosse possível o contrário - uma artista autêntica. Tão livre e dramática é sua expressão que chegou a ser censurada, ainda que por apenas 15 dias. O DVD A Rainha e os Artistas do Rádio, lançado no segundo semestre de 2009 e gravado na Rádio Nacional, mostra a atriz e cantora de sempre, interpretando o que diz num repertório de letras fortes, algumas de sua autoria, outras cuidadosamente selecionadas. Guarda na memória nada menos que três mil músicas. Sua biografia está sendo escrita pela jornalista Diana Aragão.

Marlene, lúcida e sensível, quer dialogar sobre as questões da atualidade com as novas gerações de artistas e de público. Para minimizar sua angústia. “Não aceito o que acontece - essa entregaàs drogas, os jovens chamando a morte tão cedo. Nunca tirei férias. Férias são para quem morre.” Em novembro passado, Marlene completou 87 anos de uma vida rica de histórias e vitaminada pela música.

O blog www.cantoramarlene.blogspot. com registrou muitas cartas de fãs, do tipo: "Marlene é várias e nesse doce novembro desejamos saúde, força e vitalidadeà maior artista do Brasil”, “Viva Marlene! Seu lugar é no palco”, “Marlene, se todos fossem iguais a você..." A atriz Lydda Sanders, 83, protagonista do filme Luar do Sertão, de 1949, diz que “ficou de queixo caído com ‘o espetáculo Marlene’ no Golden Room do Copacabana Palace em 1947.” Vitoria Bonaiutti de Martino, seu nome de batismo, nasceu em uma família italiana e evangélica em São Paulo uma semana após o falecimento do pai.

Apesar de a ideia de se tornar cantora não ser bem aceita em casa, sua estreia profissional ocorreu bem cedo, aos 13 anos, no programa A Hora do Estudante, da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Por algum tempo, cerca de seis meses, fomos vizinhos de Marlene. Isso até uma movimentação incomum em seu apartamento deixar à mostra roupas brilhantes de espetáculos, embaladas junto a muitos tecidos, flores e adereços. Marlene estava de mudança. Mas o jeito autêntico e inteligente de ser, este certamente não mudará.


Condomínio etc. - Quais são suas primeiras lembranças relacionadas à música?
Marlene - São as cantigas de roda japonesas, que cheguei a cantar nos anos 1950 no programa Gente que Brilha, dirigido
por Paulo Roberto na Rádio Nacional. [Marlene cantarola, suavemente, duas cantigas japonesas]. A música está no sangue, fui criada ouvindo música sacra e clássica. Mas o que me impulsionou foram os hinos evangélicos, que ouvia e
cantava na Igreja Batista, em São Paulo.A primeira vez que pisei num palco foi em um Natal, aos seis anos, dirigida por minha irmã. Acho que a pessoa já nasce com uma estrela, porque ninguém me ensinou e minha família sempre foi contra. Depois todo mundo me paparicou,
8 www.condominioetc.com.br mas no começo sofri muito preconceito. Minha mãe, Antonieta, uma mulher muito forte, foi a primeira diaconisa evangélica do Brasil e um dia me disse: “Aproveita sua popularidade e ajuda quem mais precisa.” Por isso, em 1952, ela criou a Associação Benefi cente dos Fãs de Marlene, com o objetivo de fazer o Natal dos pobres em um morro do Rio, que era sorteado e ganhava presentes e alimentação. Eu já era uma artista internacional quando minha mãe morreu e nunca vi tanta gente em um velório.

Cetc. - É verdade que você adotou o nome artístico de Marlene em homenagem a Marlene Dietrich?
Marlene - Na verdade, quem escolheu Marlene como nome artístico foi a Federação dos Estudantes do Estado de São Paulo. Agora se o nome foi escolhido por causa dela, sinceramente não sei. Sugeriram Marlene e aceitei. Podia até ser Anastácia, que é um nome bonito também [risos]. Eu queria era cantar.

Cetc. - Sua geração teve o rádio como principal veículo de comunicação. Ele perdeu seu reinado, mas manteve o poder.
Qual o papel do rádio hoje, quando vivemos o império da imagem? O jabá, dinheiro que as gravadoras dão às rádios para que toquem determinadas músicas, funciona como uma censura econômica?
Marlene -O rádio continua a desempenhar seu papel informativo, mesmo com o apelo da imagem. Em meu tempo não havia jabá, não que eu saiba..

Cetc. - João Gonçalves, assessor de condomínios da CIPA e seu fã, pergunta: por que você não está na mídia enquanto artistas de pouco valor ocupam espaço?
Marlene - Não me sinto tão fora da mídia. Sou procurada constantemente por canais a cabo, jornais e revistas. Além disso, acabo de lançar meu DVD/CD. Às vezes me escuto na Rádio Nacional, Roquette Pinto, MPB FM e MEC.

Cetc. - Outro fã, Vicente Rocha, paraibano e animador cultural no Rio, era macaco de auditório da Rádio Borborema
de Campina Grande. Ele pergunta: Marlene, você tem noção da importância de seu trabalho para a juventude nordestina dos anos 1950?
Marlene –Não tenho a menor noção. Sempre adorei o Nordeste... Eu tinha essa capacidade de abrir caminhos, fui contra a vontade da família. Sou vaidosa com meu trabalho. O que sinto no palco, faço. Eu entrego. É uma entrega total. Minha vidaé um palco.

Cetc. - Você foi pioneira em muitos aspectos da vida brasileira: a primeira a gravar música de protesto; a gravar
Gonzaguinha; a se apresentar no Olympia, de Paris; lançou a moda da calça comprida feminina e foi símbolo de elegância; única cantora tricampeã do carnaval, tendo recebido o troféu Carmen Miranda. Fale-nos dessa força, do que mantém você acesa.
Marlene - A preocupação com a educação e a felicidade de um povo, que é meu povo, é que me mantém acesa. Se me visto bem é por respeito ao público, para dar-lhe uma alegria. Como diz Milton, “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Cetc. - E Gonzaguinha, Marlene?
Marlene -Com os olhos úmidos, as mãos no peito] Ele é tudo para mim, o mais forte. Acho que foi apaixonado por mim. O pai [Luiz Gonzaga] me perguntava: por que você ama tanto meu filho? Gonzaguinha fez O Galope para mim. Que compositor fantástico!

Cetc. - O quanto da rivalidade entre você e Emilinha Borba era marketing e o quanto era real? É verdade que você gravou duas canções com ela (Eu Já Vi Tudo e Casca de Arroz) por imposição da gravadora, para amenizar a briga dos fãs?
Marlene -Tudo era real, não havia marketing. Duas músicas não, gravei várias. Participo do último trabalho dela, em dueto, na música Entre Tapas e Beijos, sucesso de Leandro e Leonardo.


Cetc. - Você que já foi dirigida por Sidney Miller, Fauzi Arap, Hermínio Bello de Carvalho, Miguel Falabella, Haroldo Costa e Ricardo Cravo Albin; que já cantou com Grande Otelo, Blecaute, Gozanguinha, Joaõ Bosco, Marcos Sacramento, Ângela Maria, Peri Ribeiro; que já participou de projetos como Seis e Meia e Pixinguinha; como você vê o atual momento musical brasileiro? O que há de bom, belo e verdadeiro?
Marlene -A música brasileira está sempre por aí, mas hoje tem alguma coisa que salva, mas a grande maioria, não. Gosto muito da Adriana Calcanhotto, da Martinália e de Seu Jorge. Gosto também de artistas como Gabriel, O Pensador e
AfroReggae porque eles retratam a realidade. Adoraria conversar com eles. Sempre dei valor às letras e fui muito atraída pela realidade. A palavra é mais forte que uma arma. Por isso eu cantava letras como “lata d'água na cabeça...” Fui interna em colégio por vários anos e depois, quando quis conhecer a realidade, subia todos os morros para ver o sofrimento e a alegria. Vivia na Mangueira e no Salgueiro. Era uma coisa curiosa. Muita gente aqui, da classe média, se queixa. Lá havia queixa, mas também muita alegria. Chamei a atenção do povo brasileiro para o morro, que hoje é respeitado. Muitos artistas saíram do morro e se tornaram estrelas, como Gonzaguinha, que nasceu no Morro de São Carlos. Chico Buarque era muito importante para mim, mas acho que atualmente ele se distanciou da realidade.

Cetc. - Se sua vida fosse encenada em um musical, qual seria a canção principal?
Marlene - Como uma Onda, de Lulu Santos e Nelson Motta [ela recita a letra que se torna poema].

Cetc. - E Edith Piaf em sua vida?
Marlene - Edith Piaf foi quem descobriu minha dramaticidade. Ela dizia: “Você se esconde muito atrás dessa brejeirice, debaixo há uma dramática.” Hoje acho que quando
é carnaval, brejeirice cabe; fora disso, não.


Cetc. - Quem, no cenário musical de hoje, representaria a continuidade de seu estilo? A quem você entregaria o posto simbólico de “A Maior” hoje?
Marlene – Ainda é cedo, estou observando. Mas acho que ninguém teve minha coragem.

Cetc. - O que ajuda a aprimorar o gosto musical dos brasileiros?
Marlene – A educação e a observação.

Cetc. - Cinema, teatro, TV ou DVD?
Marlene –Gravar o DVD foi um trabalho árduo mas gratifi cante. Fiz uma novela das sete, em 1981, O Amor É Nosso, mas não gostei do ambiente, me esnobaram. Teatro e cinema, eu sempre adorei. Por exemplo, o fi lme A Volta do Filho Pródigo, de Ypojuca Pontes, mexeu demais comigo porque fi z uma velha louca, cega e muda. Uma tragédia.

Cetc. - Embora o “r” não negue a naturalidade paulista, você é carioquíssima e mora há muitos anos em Copacabana. Considera que o bairro é, neste sentido, um microcosmo da realidade?
Marlene –Copacabana, com todas as divergências, é uma grande família. O “oi, oi” na rua dá uma intimidade! Nem precisa conhecer as pessoas. Sou carioca mesmo, recebi o título muito jovem e gosto daqui.

Cetc. - Marlene, o que aflige você?
Marlene – Fico triste com a precariedade da vida hoje e com o que acontece no Rio. Observo tudo e quero fazer alguma coisa para ajudar a mocidade. O povo anda tão sofrido com a violência, o narcotráfico. O medo imperou. Por isso ando triste. Queria meu Rio de Janeiro como eu conheci. O antigo me dá prazer.

Cetc. - Como é ter 87 anos? Que tesouros guarda na lembrança?
Marlene – Guardo na memória a alegria de um povo. Sou carregada pelo entusiasmo da vida. A música é a melhor companheira que sempre tive. Mesmo de boca fechada, eu canto.

 

A Associação Marlenista do Rio de Janeiro (Amar), residida por Nieta Carvalho, iniciou suas atividades no dia 20 de janeiro de 1986. Os objetivos eram, inicialmente, assessorar, agenciar e representar, juridicamente, Marlene em todos os trabalhos artísticos, através de uma produção
exclusiva dedicada à artista. Todo o acervo da artista foi doado à Amar que, por não possuir sede, entregou parte dele ao Instituto Cravo Albin e outra parte ficará sob a guarda do Museu da Imagem e do Som. Cézar Sepúlveda, um dos diretores da associação que batalhou durante cinco anos pelo DVD, dá o seguinte depoimento: “Quando fui convidado para pesquisar a vida de Marlene para o DVD/documentário fui a seu encontro e, ao abraçá-la, tive a impressão de estar abraçando um cometa. Dei-me conta da dimensão do enigma que é esta mulher singular. (...) Nesse fraterno abraço compreendi por que Marlene chegou até hoje persona íntegra, completa. Ela é amalgamada pelo talento, e talento é eterno. Nos tempos atuais, confusos e incertos, muitos acompanham sua carreira, mas um grande número de pessoas não a conhece de fato, nem o que e o quanto fez. Esse DVD registra a presença de uma das artistas mais fascinantes da história do showbizz do Brasil."