44-JAN FEV MAR 2010
 


Férias não são brincadeira
Léo João



Férias, finalmente! Nessas horas a gente vê como é duro ser criança. Liginha e Ricardo, do 502, precisaram esperar o ano inteiro para viajar até a fazenda novamente com seus pais. Marcelinho também vai viajar, só que, ao que tudo indica, não será dessa vez sua ida à Disney. Flávia, do 304, passará uma semana fora, mas não será propriamente uma viagem. Ficará na casa de sua avó Odila, em outro bairro, enquanto os pais – estes sim – vão viajar. Dona Odila, claro, não contaria a ninguém, mas isso é o tipo de coisa que anima muito mais ela do que outros compromissos em família, como Natal, seu aniversário ou o aniversário de qualquer outro parente. Já quanto à sua neta não sei se podemos dizer o mesmo.

Marina, do 103, não passará as férias com sua mãe e terá que se virar em casa. É porque Danusa, uma colega do trabalho da mãe, se antecipou e comunicou suas férias ao chefe, ignorando o rodízio informal comumente feito no setor. E “aquela vaca nem tinha filho”, teria ouvido sua mãe falar e ainda levou bronca quando repetiu isso no jantar. Não entendeu nada, pois nome feio ela sabia que não podia dizer, agora, vaca é bicho, qual problema?Guilherme, do 807, e Pedrinho, do 704, voltariam a ser parceiros inseparáveis um do outro. É que a vida de seus pais não mudava nada na época das férias, todos trabalhando como sempre trabalhavam, e aos dois meninos só restava o acanhado playground do prédio como a vastidão de seus domínios na falta da escola.

E eles governavam e desgovernavam aquele pedaço de terra como ninguém. Difícil seria arrumar mais gente para montar os times de futebol. Rose, do 204, ainda demoraria para aproveitar as férias. Tinha ficado em recuperação e, fora a punição natural de ver sua felicidade adiada por obrigações estudantis retardadas, o castigo imposto por seu pai ainda abocanharia um pedaço a mais do seu já curto janeiro.

Ângela Rosa, do 102, começava a pensar no material de sua volta às aulas, ainda que as férias nem bem tenham dado o ar da graça. Mas é preciso ser precavida. E no firme pensamento da pequena Ângela Rosa, a nova mochila, o estojo diferente, as canetas, a lancheira, tudo isso era infinitamente mais importante do que idas à praia, colônias de férias e afins. Para Leandro e Jorginho, do 304 e 309, respectivamente, de agora até o carnaval tudo se resumiria em videogame. Fundamental era terem ganhado os jogos novos que pediram, mas Papai Noel não deu os presentes certos. Ou entendeu errado ou algum duende descuidado extraviou. Aretha, do 509, estava satisfeita simplesmente por poder acordar mais tarde.
Marlene, do 605, teria tempo, finalmente, para cuidar com calma de todos os preparativos para o casamento de sua Barbie com o Batman do primo. Maria, Bernardo, Lívia, Vivien, Andréa, Julinho, Maria Luíza, Carol e João formam a galera de férias da faculdade. Lê-se: o pessoal que podia fazer o que quisesse. As histórias deles, aliás, não serão contadas neste texto-censura livre. E os números de seus apartamentos permanecerão cautelosamente omitidos.

Falando neste texto, antes de ele chegar ao fim, Ângela Rosa se lembrará que, provavelmente, na primeira semana de aula precisará escrever uma redação sobre o que fez nas férias. Agora não sabe se pede o quanto antes para ir à papelaria ou ao sítio da Tia Nini. É duro ser criança.

 



 
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