44-JAN FEV MAR 2010
 


Stella Maris Mendonça (smarismendonca@gmail.com)

 

Para nossa saúde psíquica é fundamental encontrar boas notícias numa cidade cuja administração retira os que dormem nas ruas sem mesmo o direito de levar seus cobertores e que recolhe os produtos dos camelôs sem coerência, nem política, nem proposta. Mas é ano-novo e ano novo é página em branco na qual podemos escrever o que quisermos, o que o desejo mandar, o que o sonho inspirar. Tomara que tenhamos bastante juízo (ou nenhum) para produzir um texto inteligente, poético, revelador. E que sejamos felizes e façamos os outros felizes também na década que começa. Já que falamos de páginas e textos e da possibilidade de construção da tão perseguida felicidade, a Bem Dita! anuncia boas novidades na área da literatura, essa arte impregnada de vida, promovedora de voos e transformações.

2010 PROMETE!

 

Bibliotecas do PAC - e da Paz

Neste ano, novíssimas bibliotecas públicas serão inauguradas. Novas no aspecto fisco e modernas no conceito. No Rio, com a Superintendência da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Estado de Cultura, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) oferecerá ao público a Biblioteca Parque de Manguinhos, a Biblioteca do Centro Cultural da Rocinha e a Biblioteca do Alemão. Com cerca de 20 setores, os usuários terão nas bibliotecas acesso livre às estantes, aos acervos diversificados e às novidades do mercado editorial, empréstimo domiciliar, capacitação digital, acesso gratuito à internet, acesso gratuito à biblioteca digital, catálogo bibliográfico on-line, audição individual de música, sessão individual e coletiva de filmes, serviços para portadores de necessidades especiais, atividades com crianças e jovens, atividades de promoção de leitura, encontros comunitários e visitas guiadas. A exemplo de Medellín, na Colômbia, um teleférico cruzará o Complexo do Alemão levando as pessoas à biblioteca. Em todo o mundo, as bibliotecas passam por grandes transformações para que livros, espaços e mobiliário estejam a serviço de uma vida melhor para o usuário.

As novas bibliotecas do PAC oferecerão leitura em diferentes suportes, com grande oferta documental eletrônica, ambientes
agradáveis, mobiliário despojado e confortável, que permitam momentos de estudo e prazer, além de locais apropriados para
atividades culturais e serviços diversos. A biblioteca, assim, se tornará um espaço atraente para desempenhar, de forma integral, seu papel na formação do cidadão.É nessa visão ampla de cultura que reside a base conceitual das modernas bibliotecas parques - bibliotecas públicas multifuncionais em área de risco -, que têm como missão o acesso imediato à informação, a transformação social, a diminuição da violência
e a criação de espaços de convivência da comunidade.

Segundo o Manifesto da Unesco, a “biblioteca pública - porta de acesso local ao conhecimento - fornece as condições básicas para uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais”.

Como a Bem Dita! se comprometeu a divulgar as ações da Fundação Darcy Ribeiro (www.fundar.org.br), presidida por Paulo Ribeiro, informamos que em dezembro passado foi lançado o quarto volume da Coleção Franceses do Brasil, com crônicas dos séculos XVI e XVII, e em novembro, durante as comemorações de 87 anos do professor Darcy Ribeiro, foram lançados a reedição da obra Testemunho e o volume da coleção franceses no Brasil, com cartas do cosmógrafo André Thevet, e do caderno 8 da série fazimentos, dedicada à política
de tombamento instituída por Darcy Ribeiro, quando vice-governador e secretário de Ciência e Cultura no primeiro governo de Leonel Brizola. “Nos primeiros anos da década de 1980, o tombamento de áreas culturais e naturais revelou-se uma estratégia para frear a acelerada destruição desses bens.” Segundo Paulo Ribeiro, a publicação é também uma homenagem a ítalo Campofi orito, parceiro de Darcy na política de tombamentos e salvação e que, na época, estava à frente do Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac).

“O tombamento é um santo remédio.” Assim Darcy sintetizou as ações que tentaram proteger da destruição os bondes de Santa Teresa, a Ilha Fiscal, as Dunas de Cabo Frio, a Rua da Carioca, a Fundição Progresso e o litoral fluminense. Como fã que sou do Darcy, foi uma alegria ver minha reportagem “Litoral fl uminense tombado” publicada no caderno 8 de fazimentos. Pena que as ações de preservação que o saudoso professor sonhou, projetou e executou precisam ainda de proteção porque a lei de tombamento não é integralmente obedecida. Temos um exemplar para você que nos mandar uma boa notícia.

Caravanas Euclidianas

O Ministério da Educação e a UniRio vão realizar, a partir de março, as Caravanas Euclidianas para levar Euclides da Cunha aos professores e estudantes do Estado do Rio de Janeiro. O projeto consiste no lançamento do filme A paz É dourada, de Noilton Nunes, inspirado na vida e obra do autor de Os sertões, acompanhado de palestras, debates e de uma ofi cina audiovisual na qual os jovens poderão trabalhar com os capítulos do livro (“A Terra”, “O Homem” e “A Luta”) que servirão de base para a documentação do cotidiano das diversas regiões do estado.


A apresentação do filme, seguida de debate com o diretor, foi um sucesso na Ofi cina de Leitura & Expressão da Biblioteca Pública do Estado, que ocorre semanalmente na biblioteca do Centro Cultural Light. Em 2010, apresentaremos o fi lme de novo.

www.brasilliterario.com.br

Durante a Flip 2009, o Instituto C&A, a Associação Casa Azul, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Instituto Ecofuturo e o Centro de Cultura Luiz Freire promoveram debate sobre a importância da leitura literária e de políticas de promoção da leitura. Na ocasião, o escritor e poeta Bartolomeu Campos de Queirós, indicado para o Prêmio Hans Christian Andersen, leu o “Manifesto por um Brasil Literário”, de sua autoria. O objetivo desse documento é acolher propostas e engajar o maior número de pessoas em torno dessa causa. O manifesto já está circulando pela internet e pode ser assinado no site www.brasilliterario.org.br, que abriga um fórum de discussão, enquetes e notícias com essa temática.

Em dezembro, Bartolomeu passou, com sua sábia mineirice, pela Biblioteca Nacional, onde participou de uma conversa com
leitores mediada pelos ilustradores Roger Mello e Graça Lima. Para vocês, trechos de seu poético depoimento:

"Eu sou mais parado em cima da palavra. Nunca desenhei nem tive coragem para isso. Meu gesto é muito contido. Não tenho a liberdade de deixar vir à tona o gesto. Sou do tempo em que a etiqueta ficava do lado de dentro da roupa. (...) A metáforaé uma figura política dentro do texto mas também esconde o autor. Não gosto do explícito. A arte não tenta desvendar o mistério. (...) O grande prazer de um texto é depois de escrevê-lo lê-lo em voz alta para ver se a frase tem um tamanho bom, se cabe minha respiração. O grande gozo da escrita é dizer: ‘Eu não sabia que eu sabia isso.’ Fico surpreso com meu texto. Aí acredito em inconsciente. Só a liberdade deixa vir à tona. Experimenta-se a liberdade em plena solidão. (...) Não sou muito adepto da Academia. A vida acadêmica nunca me cativou, mas gosto muito quando meu trabalho passa pelas mãos dos críticos. Sou um cara da liberdade - leio o que gosto, quando gosto. Ser indicado para o Prêmio Andersen me faz ficar mais exigente. (...) A frase da Geneviève Patte [bibliotecária francesa] - A criança precisa do adulto - me desloca e me pergunto: a criança precisa do que faço? (...) Toda vez que você procura uma rima, enfraquece a poesia. Quando ela fluié que é bom. (...) Há o leitor pelo consumo externo e há o leitor pelo consumo interno que faz uma leitura reflexiva, que atordoa, que lê uma literatura que pode trazer certa paz. Educação pela arte é educação pela paz. A beleza compartilha, congrega. A beleza exige o outro de seu lado; ver a beleza sozinho é triste. (...) Precisamos de leitores que sejam capazes de se sensibilizarem com a poesia que circula no mundo. Precisamos de um Brasil capaz de saber o que é digno e o que é indigno. (...) A família, a escola, a biblioteca não dão conta. Por que não bons textos nas contas de água, de luz, de telefone? (...) A arte congrega todo mundo. Saio do show da Betânia com vontade de trabalhar. A beleza tem força movedora. (...) Nascer é inaugurar-se em alfabetização. A escola é apenas mais uma leitura. Todos que entram nela já sabem ler. A vida não nos deixa analfabetos. Somos condenados à leitura. A do alfabeto é apenas mais uma leitura. Ler demanda trabalho - nem sempre é entretenimento. (...) Na psicanálise existe um sujeito que te ouve. Na literatura, o livro, um objeto, te escuta.É importante o papel do mediador de leitura. (...) Carregamos dentro de nós uma fantasia que só contamos para nós mesmos. Quando encontramos um texto que conversa com essa fantasia, nos tornamos leitores. (...) Cito Foucault: ‘O que o leitor lê não é a frase que escrevo, mas o silêncio que deixo nas frases.’ (...) Dou conta de usar o computador mas não dou conta de saber quem botou o desejo do açúcar no coração da formiga. O mistério está no lixo, como diz Manoel de Barros. Que consciência de sua fragilidade tem o caramujo - vomita uma gosma para fazer o caminho e não se machucar. (...) No meu livro Tempo de Voo tem uma enorme saudade do mundo. Doeu na pele. Paul Valéry disse que a parte mais profunda do homem é a pele. Viver é o maior escândalo."

E mais um humor com a mormota, o jornal

O escritor e colaborador da Condomínio Márcio Paschoal apresenta este divertido jornal ou, melhor e carinhosamente, jornaleco:

“Mais uma Marmota. Terceira na nobre linhagem desse roedor bem-humorado. O tema escolhido dessa vez foi aberto, ou seja, aberto a todo tipo de sexo, estranhezas, novas drogas, filosofia caríssima, discussão das relações e demais assuntos que possam envolver a pilhéria como leitmotiv.

São textos corajosamente escritos e assinados por pessoas que nem sempre têm envolvimento com a literatura clássica grega de uma forma geral, embora alguns sejam escritores, cantores, atores, roteiristas, jornalistas e, no fundo, caras de pau de plantão. Por falar nisso, nesta edição de fim de ano (e de linha) trazemos a corajosa entrevista, com direito à charge de Ique, do“cara de pau” Marcius Melhem, na qual ele não diz nada de muito importante mesmo. Mas não afina. Fala tudo o que pensa e lhe vem à cabeça. Nessa ordem.

Divirta-se também com um depoimento sincero que põe fim à mítica celebração das performances sexuais masculinas; o diálogo de uma adolescente madura e uma mãe adolescente; a certeza de que às vezes somos lembrados apenas por uma frase; as magias de um desencontro; um sequestro sexual de
uma cabeleireira russa; o despertar para o teatro no papel de um corvo; a história surreal de três amigas divididas; Hegel à vontade e sem meias palavras; um guia prático para mulheres aflitas na internet; dois cocôs num papo cabeça; o politicamente incorreto traduzido nas conversas; um novo tipo de mulher: a blindada; o alerta: nunca chame seu filho de esforçado; o testemunho de que a pressa não leva a nada e só faz você ficar atrasado; e o incrível relato do tarado que come cavalo (sem bife e batata frita).

Histrionismo, literatura, teatro e humor fino e educado a dar com o pênis. E se isso não for o suficiente para sermos considerados positivamente bizarros e intelectualmente sensuais, não nos chamem mais de marmotas.” Quem se interessar em virar um marmota ou marmoteiro pode escrever para esta coluna.

Nasceu a revista BURITI

Ao lançar a revista Buriti, o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), da Fundação Biblioteca Nacional - MinC, cumpre mais uma de suas atribuições, que é produzir publicações que sirvam como material de apoio ao trabalho pedagógico de formar profissionais de leitura e escrita. A revista semestral - que tem seções de ensaios, entrevistas, depoimentos e indicações de leituras - é gratuita para as bibliotecas públicas e os comitês do Proler mas também pode ser comprada na Biblioteca Nacional. O próximo número deverá sair em fevereiro. A editora Suzana Vargas informa no editorial que a publicação "também serve como instrumento concreto de atualização e interação para as muitas descobertas que a leitura pode proporcionar não somente aos envolvidos com programas de leitura, mas ao cidadão comum. (...) Em suas linhas gerais, o primeiro número procura contemplar os diversos setores do universo da leitura com um material que seja, principalmente, útil aos profissionais que sobre ela pensam e com ela trabalham.”

Para Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional, "a revista Buriti, como a palmeira de onde vem o nome, é uma promessa de sabor e fibra para os debates entre os que se comprometem com a expansão do ato de ler".

Você, leitor(a), que nos enviar uma frase ou texto com uma boa notícia receberá uma Buriti.

PRO JETO DE SEGURANÇA DE IPANEMA (PSI ) –
agenda de 2010

A boa-nova é que o Colégio Notre Dame (Rua Barão da Torre, 308) sediará as reuniões quinzenais do PSI, importante ação civil que vem sendo divulgada pela Bem Dita! “Temos certeza de que a parceria que se inicia será de grande valia tanto para nós como para a escola. A presença de alunos, seus pais ou funcionários do colégio em nossas reuniões só vai enriquecê-las. Para os jovens alunos será uma oportunidade rara de presenciar a evolução e organização de um projeto de
cidadania que será, sem dúvida, muito benéfico para a formação de cidadãos responsáveis, conscientes e compromissados com o destino da cidade onde moram”, diz Ignez Barreto, coordenadora do PSI.

Seguem as datas, para 2010, das reuniões que são abertas para quem quiser participar:

janeiro - dias 12 e 26; fevereiro - 9 e 23; março - 9 e 23; abril - 6 e 27; maio - 11 e 25; junho - 8 e 22; julho - 13 e 27; agosto - 10 e 24; setembro - 14 e 28; outubro - 19; novembro
- 9 e 23 e dezembro - 7.

 


Caderno 8 da série Fazimentos, dedicadas à política de tombamento intituída por Darcy Ribeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bartolomeu Campos de Queirós, indicado para o prêmio Hans Christian Andersen, durante a FLIP 2009