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O guardião das tradições militares do Brasil

No início do século XVIII, foi erguida, no Promontório da Praia de Sacopenapan, uma capelinha dedicada à Nossa Senhora de Copacabana, santa protetora dos mineradores, cuja imagem pioneira chegara ao Rio de Janeiro nos primórdios da cidade, num carregamento de prata vindo das minas de Potosi.
No entanto, o local logo chamou a atenção dos lusitanos por seu valor estratégico, e os portugueses eram espertos demais para deixar o local sem defesa.
O vice-rei Marquês de Lavradio mandou erguer, em 1776, um pequeno forte em alvenaria no local onde era a antiga ponta da igrejinha, na Praia de Sacopenapan. Sua função era prevenir ataques dos espanhóis que, no ano seguinte, invadiram o território nacional e atingiram a capitania de Santa Catarina. O forte nunca foi terminado e somente foi artilhado em 1823, quando, por ironia, se temia um ataque português às nossas costas. Em 1831, foi desarmado por ordem da Regência provisória. Quando da Revolta da armada, em 1893, voltou a ser artilhado, mas sua ancianidade já estava patente: nada pôde ser feito para impedir a saída dos navios revoltosos da Baía de Guanabara.
Anos depois, uma ameaça de guerra contra a República Argentina fez com que o Estado-maior do exército encomendasse, em 1898, o projeto de uma nova fortificação ao major engenheiro Augusto Tasso Fragoso, que elaborou um audacioso anteprojeto da Fortaleza de Copacabana, com
seis canhões de longo alcance. A solução da questão de fronteira com aquela república foi resolvida diplomaticamente pelo barão do Rio Branco, fazendo com que o projeto da citada fortificação fosse engavetado.
Com o declínio das relações entre a Argentina e o Brasil, na primeira década do século XX, decidiu-se pela construção da
fortificação, tendo sido enviado o projeto de Tasso Fragoso à casa Krupp, de Essen, na Alemanha, para ser atualizado e orçado. A obra foi toda recalculada para ser executada, na Alemanha, em peças de concreto pré-moldadas, e os canhões foram adaptados aos novos calibres surgidos. O major-engenheiro Otto Kuhn foi o responsável pelas alterações.
Em 1908, sendo presidente da República Afonso Augusto Moreira Penna e ministro da guerra o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, foi dado início à obra da fortificação, que veio quase toda desmontada da alemanha em 5 mil caixotes, desembarcados num cais construído especialmente para isso, ao lado da ponta de Copacabana. O major Arnaldo Paes de Andrade coordenou a obra.
O Forte de Copacabana foi, finalmente, inaugurado em 28 de setembro de 1914, sendo classificado, na ocasião, de fortificação de primeira classe. era dotado de seis canhões Krupp de longo alcance: dois de 240 mm, dois de 180 mm e dois de 75 mm. O alcance máximo atingia 28 km. O útil, 21 km. Os quatro primeiros podiam girar 360o. Os dois últimos, somente 180o. Na época não existia nada que o superasse na América Latina.
Em 1918, o forte foi ampliado, tendo o exército adquirido a rua de acesso e comprado da mitra a igrejinha de Nossa Senhora de Copacabana, erguida por volta de 1715 e demolida em 1918-19 por ficar na linha de fogo dos quatro maiores canhões. Na mesma ocasião, foi construído o quartel de paz e foram ampliadas as instalações elétricas, fornecidas pela firma AEG, de Berlin, tão poderosas que podiam suprir de energia elétrica todo o bairro de Copacabana. O artístico portal da Praça Coronel Eugênio Franco, bem como a magnífica entrada da Praça d`armas, foi projeto do major-engenheiro Volmér da Silveira.
Em princípio de julho de 1922, depois de vários atritos entre o governo Epitácio Pessoa e o exército, a prisão do marechal
Hermes da Fonseca, por insubordinação, foi ordenada. o Forte de Copacabana, na ocasião, era comandado pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca, que intentou um plano para derrubar o governo pela força das armas. A rebelião foi marcada para 5 de julho, mas o governo se antecipou e trocou os principais comandos das guarnições das fortificações da cidade, tendo como consequência disso que apenas os Fortes de copacabana e leme, este desarmado, e a escola militar aderiram ao movimento, sendo que os dois últimos foram logo debelados.
O Forte de Copacabana fez vários disparos contra o quartel general do Exército, no Campo de Santana, o ministério da Marinha, na Praça Barão de Ladário, a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, e o Forte de S ão João, na Urca,
tendo atingido somente o primeiro, no segundo tiro. O capitão Euclides Hermes saiu da fortificação para negociar e foi preso em Laranjeiras. Assumiu, então, a chefia do movimento, o tenente Antônio de Siqueira Campos, que verificou a total impossibilidade de resistência, bem como o sacrifício que tal atitude estava custando à população da cidade, com as balas atingindo alvos civis. Também observou que os canhões haviam sido sabotados, e agora o forte era bombardeado pelo encouraçado São Paulo e por aviões militares. Resolveu então abrir o forte, permitindo que os desejosos de rendição assim o procedessem. Trezentos se renderam, ficando fiéis ao movimento apenas 28 homens, que resolveram marchar até o Catete, num ato de protesto suicida. Às 13h do dia 6 de julho, iniciaram a marcha, juntando-se a eles o engenheiro civil Otávio Correia, amigo de Siqueira Campos. Um número até hoje não especificado de integrantes se rendeu ou desertou, restando cerca de 13 pessoas do grupo original. Na altura da Rua Barroso, atual Siqueira Campos, foram obstaculizados por uma força legalista. Um tiroteio, que durou cerca de 30 minutos, teve início. no final, foram capturados, muito feridos, o tenente Siqueira Campos, com um tiro no abdome, o capitão Eduardo Gomes, com um tiro na virilha, e dois soldados. Os outros morreram em consequência dos ferimentos recebidos.
A atitude de protesto contra o governo da República Velha fora debelada, mas o exemplo frutificou, originando o dito Movimento Tenentista e a legenda dos Dezoito do Forte (termo cunhado pela imprensa, que desconhecia o número real de participantes), os quais representavam uma atitude de protesto da classe média à oligarquia que nos governava.
Dois anos depois, na mesma data, estourava movimento similar em São Paulo, e de 1925 a 1927, o país foi palmilhado
pela coluna Prestes, com idêntico objetivo. A vitória dos tenentes deu-se na Revolução de 1930, com a queda do governo e a ascensão de vargas. Em 24 de outubro de 1930, o Forte de Copacabana serviu de presídio ao presidente deposto, Dr. Washington Luís Pereira de Sousa, bem como ao prefeito do Distrito Federal, antônio Prado Júnior. Partiram, ambos em exílio, direto dali para a europa.
O Forte de Copacabana teve atuação discreta durante a segunda guerra mundial, tendo dado seus últimos disparos efetivos em novembro de 1955, contra o cruzador Tamandaré, que se rebelara e fugira para São Paulo, levando a bordo o presidente deposto, o Sr. Carlos Luz, bem como parte de seu ministério e aliados. Foram feitos 12 disparos durante 20 minutos, sem, no entanto, atingir a embarcação, que estava desarmada e só com uma hélice funcionando.
Em 1964, o forte não aderiu ao movimento militar de 1o. de abril, tendo sido tomado pela força de terra enviada pelo coronel C ézar Montagna, ocorrendo, então, o famoso “Episódio da Bofetada”, quando o dito coronel derrubou a sentinela da entrada com um golpe de mão, invadindo e tomando a fortificação sem o uso de armas. Durante o regime militar, o Forte de Copacabana serviu de presídio político.
Desativado totalmente em 1986, foi reaberto no ano seguinte como museu histórico do Exército e Forte de Copacabana, muito ampliado em meados da década de 1990 por ordem do ministro do exército Zenildo de Lucena, sendo suas instalações equipadas com os mais modernos processos museológicos, tornando-se importante bem cultural da cidade e repositório de elevadas tradições militares. A área de entorno, cujos terrenos chegam ao arpoador, igualmente tornou-se notável praça de lazer para a população carioca, sendo palco de eventos marcantes, particularmente no réveillon, em que há artística queima de fogos e disputada recepção.
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