43-OUT NOV DEZ 2009
 


» ENTREVISTA

O meigo mago Geraldo Azevedo
Stella Maris Mendonça (smarismendonca@gmail.com)


Ele é um mouro, menestrel do amor. O poeta, compositor, cantor, violonista e artista plástico pernambucano Geraldo Azevedo de Amorim é dono de muitas cabeças e embala domingos e dias brancos de um público que repleta seus shows, cantando, dançando, se beijando. Geraldinho, um mago que mistura harmonias sofisticadas da bossa nova a ritmos da música negra, tem inspirado a poesia, o canto e a alegria de várias gerações.

Quem não se derrete com Dia Branco, Dona da Minha Cabeça, Moça Bonita, Táxi Lunar e com todas as canções de Cantoria, trabalho que reúne Xangai, Elomar e Vital Farias, ou de O Grande Encontro, com Alceu Valença, Zé Ramalho e Elba Ramalho, finas flores de nosso campo musical?

Autodidata, aos 12 anos de idade já estava tocando violão; aos 17 começou a fazer parte do grupo Sambossa e aos 18 anos foi estudar no Recife, onde juntou-se ao grupo folclórico Construção, do qual faziam parte Teca Calazans, Naná Vasconcelos, Marcelo Melo e Toinho Alves, músicos do Quinteto Violado. Em 1967, no Rio de Janeiro, juntou-se a Naná Vasconcelos, Nélson Ângelo e Franklin, formando o Quarteto Livre. o grupo, depois dissolvido na ditadura, acompanhou o cantor Geraldo Vandré em diversos shows, inclusive na inesquecível “Caminhando e Cantando e Seguindo a canção / somos todos iguais, braços dados ou não”. em 1968, Eliana Pittman gravou sua primeira composição, Aquela Rosa. No início dos anos1970, formou dupla com o também pernambucano alceu valença e, juntos,
participaram do Festival Universitário da TV Tupi com as composições 78 rotações e Planetário.

Segundo o Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin, a boa performance da dupla chamou a atenção da gravadora Copacabana e, em 1972, lançou, com Alceu Valença, seu primeiro LP. No mesmo ano, ainda com o parceiro Alceu Valença, participou do Festival Internacional da canção com Papagaio do Futuro, música que contou com a presença de Jackson do Pandeiro. Ainda com Alceu e com Zé Ramalho fez
grande sucesso em fins dos anos 1970, com Táxi Lunar. também, no mesmo período, outro grande sucesso foi Caravana, parceria com Carlos Fernando, que fez parte da trilha sonora da novela Gabriela, da TV Globo. em 1979 e 1980, participou do projeto coletivo de gravação de frevos, o Asas da América, volumes I e II. Em 1984, participou, com os músicos Elomar, Vital Farias e Xangai, do show Cantoria, no teatro Castro Alves, em Salvador, do qual resultou o disco Cantoria I, gravado ao vivo. Em 1988, foi lançado o disco Cantoria II. Em 1996, participou, no Canecão, no Rio de Janeiro, do show O Grande Encontro, ao lado de Alceu Valença, Elba Ramalho e Zé Ramalho. Do show resultou o CD de mesmo nome, no qual interpretou O Ciúme, de Caetano
Veloso, Dia Branco, de sua autoria e Renato Rocha, Veja (Margarida), de Vital Farias, e Chorando e Cantando, dele e de Fausto Nilo. Em 1997, gravou O grande Encontro II, com Elba e Zé Ramalho. Em 1999, realizou uma série de shows, percorrendo diversas cidades de Minas Gerais e do Nordeste, que culminou com um show ao vivo em praça pública no Recife. Em 2000, lançou o CD Hoje Amanhã, gravado nos Estados Unidos, no qual interpretou, entre outras, Vou te Buscar e Quando Você Vem, parcerias com Geraldo Amaral, e Tá Querendo, com Capinam, além da música título, em parceria com Fausto Nilo. Em 2001, apresentou-se no Canecão cantando músicas desse disco, acompanhado do grupo de Forró Paratodos, de seu filho Lucas. Na ocasião, foi apresentado em primeira mão o clipe da música Onde Tu Vai, João? Em 2002, foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com o título de cidadão do estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano, tocou em Paris com um grupo de artistas brasileiros. Em 2005, fez participação especial cantando com o grupo a música Táxi lunar, no DVD O Melhor Forró do Mundo, gravado ao vivo pelo grupo Forroçacana em show no Canecão. Em 2006, prestes a completar 43 anos de carreira, apresentou diversos clássicos de sua trajetória em show na Lona Cultural Gilberto Gil, em Realengo, no Rio de Janeiro.

Como vemos, o sucesso acompanha sua carreira. O primeiro DVD é lançado agora, na maturidade, quando o homem e o compositor estão prontos para nos oferecer o melhor. Coisas de quem sabe.

Condomínio etc. - Como e quando foi o início da manifestação artística?
Geraldinho Azevedo - Quando pequeno, a música já fazia parte de minha vida, pois minha mãe mantinha uma escolinha de alfabetização em nossa casa, no interior, e procurava sempre fazer saraus, festejos folclóricos, nos quais cantávamos e dançávamos muito. Também existiam as novenas cantadas e meu pai e vários parentes que tocavam violão. A casa sempre estava com gente tocando e cantando.

Cetc. - Do alto de sua carreira, como avalia a caminhada?
GA - Ao mesmo tempo que é calma, tem muito trabalho, resistência e insistência. O carinho que o público passa nos shows, cantando minhas músicas e fazendo com que elas façam parte da vida deles, favorece essa caminhada.

Cetc. - Suas referências musicais são...
GA - A verdade é que temos um caldeirão musical imenso no Brasil e devemos nos sentir gratos e muito ricos por isso, por
toda essa diversidade. Fica difícil dizer o que me influencia, mas acho que todo tipo de música pode exercer influência. também gosto muito da música africana, acho muito bonita.

Cetc. - Como costuma ser seu processo de composição? Com os anos, a fonte diminui ou a água fica mais limpa?
GA - Durante toda a trajetória existe alternância de momentos de grandes safras e outros nem tanto. No início de carreira a gente fica receoso de que a fonte seque, mas sempre que a gente tem algo a dizer, o que é um estímulo, a canção vem. Quanto ao processo, não há uma regra não. No início, eu fazia mais as melodias e depois colocava a letra ou dava para parceiros colocarem. Depois passei a fazer letras e colocar a melodia. Às vezes, uma música ou letra sai rapidamente; outras, fico burilando durante anos. Às vezes, anos depois, acho uma letra e retomo para trabalhar a composição. O fato é que não há uma só forma e ninguém sabe a fórmula.É um mistério e toda canção é uma forma maravilhosa de comunicação.

Cetc. - Poesia e letra de música - uma questão.
GA – Todas as letras de música, pelo menos as que escrevo e as que meus parceiros escrevem, são poesias. Embora nem toda poesia a gente consiga transformar em letra de música, em função da métrica ou mesmo da forma como as palavras foram colocadas. Eu tento sempre aprimorar e fazer poesia de minhas letras, juntá-las de uma forma harmoniosa.

Cetc. - Como se dá uma parceria harmônica?
GA - Eu adoro parceria! acho que sempre acrescenta a meu trabalho, dá grandeza e amplitude. Já comecei letras que foram completadas por parceiros, com palavras e significados que eu não tinha imaginado, e ficaram maravilhosas. É claro que a capacidade de fazer letra e música sozinho é muito boa mas, mesmo quando faço dessa forma, peço a opinião de meus parceiros.

Cetc. - Alda Miranda, sua fã, quer saber o que o inspirou a compor a bela Dia Branco.
GA - A inspiração de dia branco veio de um disco triplo que George Harisson lançou depois do fim dos Beatles. Foi um disco que eu ouvi muito e me deu muita inspiração. O Renato Rocha tinha os versos: “se você vier, pro que der e vier comigo” e nós terminamos a canção. Acho que a inspiração dessa música vem muito do pensamento de que o que a gente quer de verdade pode acontecer.

Cetc. - Qual a química de uma música e seu sucesso?
GA - Eu não faço música para ser sucesso, mas a finalidade é me comunicar e emocionar as pessoas com o que tenho a dizer. Eu acho que elas viram sucesso pela identificação que o público tem com elas, pela alegria e emoção que sentem ao cantá-las.

Cetc. - Rádio e jabá/música e meios de comunicação - outra questão.
GA - Não me envolvo e nunca paguei para que minhas músicas tocassem nas rádios, até porque sou um artista independente e não disponho desses mecanismos. As canções, assim como meus álbuns, têm vida própria. Já cheguei a vender mais de 1 milhão de discos de um só álbum ao longo dos anos. Não sou o tipo de artista que vende de uma tacada uma quantidade enorme, mas meus discos têm vida longa e a melhor divulgação é o boca a boca. Outro ponto é que meu público está sempre se renovando, sempre há gente de diversas gerações que vão a meus shows, gostam de minhas músicas e as divulgam. Eu não dependo de rádio, mas é um veículo maravilhoso de divulgação. Algumas rádios alternativas e mais voltadas para MPB tocam minhas músicas, e, hoje em dia, temos a internet, que é uma ótima ferramenta para propagação das músicas, principalmente para as gerações que estão me descobrindo.

Cetc. - O Nordeste - com suas cores, nomes, raízes, festejos e tantos sons - que posição ocupa no cenário musical brasileiro?
GA - o nordeste tem uma posição grandiosa no cenário cultural brasileiro. Se eu for falar de todos os talentos que vieram dessa região não vai caber nesta entrevista. E não é só na música, não. O cordel, O Pastoril e várias festas folclóricas, o carnaval de rua e a festa de São João são fontes de inspiração para nordestinos e todos os que apreciam nossa cultura. Temos vários escritores, cantores, compositores e artistas plásticos maravilhosos. É uma imensa contribuição que o Nordeste dá à cultura mundial. Deveria ser mais reconhecido, mas a gente insiste em mostrar para o
mundo nossa riqueza!

Cetc. - O que esbanja o Brasil e de que carece ele?
GA - o Brasil, infelizmente, esbanja irregularidades em diversas instituições governamentais. acho que carecemos de cobrança popular acerca desse descontrole e das irregularidades, o que resultaria em benefícios para o povo, em todos os âmbitos. mas também esbanjamos alegria, riqueza cultural e isso é inerente ao povo brasileiro

Cetc. - Como vai a nova safra da MPB?
GA - A MPB nunca parou e está sempre em ebulição, com novos conceitos, novas ideias, novas misturas. Mesmo com todos os percalços, como foi na época da ditadura, por exemplo, a MPB sempre se manteve ativa e atuante. Mesmo hoje, quando as rádios e as mídias em geral ainda dão mais atenção à música americana, continuamos produzindo, e mais e mais talentos aparecem pelo Brasil. O mundo todo respeita e admira nossa música.

Cetc. - Viver de arte e a formação de plateia no país - terceira questão.
GA - Viver de arte é uma arte no Brasil, mas é possível. Tem que gostar muito de fazer música e de trabalhar. É um trabalho árduo. E é muito importante lembrar que estamos sempre nos comunicando através de nossas canções, passando nossos valores e experiências. Fico lisonjeado por ter um público de gerações tão diversas, ter minhas músicas regravadas por artistas de vários estilos. Tudo depende de se fazer com amor e é isso que gera encontros maravilhosos, e é o que importa.

Cetc. - Geraldinho, quais são seus projetos atuais e futuros?
GA - Estou lançando meu primeiro DVD. A maior novidade do DVD é que meus desenhos serviram como cenários e figurinos. A mônica martins soube, através de minha filha Gabriela Azevedo, que eu desenhava e fez um belo trabalho com eles. Acho que meus fãs não conheciam esse meu lado.
No palco, músicos que têm tocado comigo ao longo desses anos, além de meus filhos, Lucas, Tiago e Clarice. Sem contar a direção da Lara Velho, que considero uma filha, e
de Gabriela, que produziu o DVD. Além dos sucessos, mais duas canções inéditas: uma em parceria com Geraldo Amaral e outra, com Capinam. Meu novo projeto, que virá na sequência, é o CD Salve, São Francisco. Como o Rio São Francisco é muito marcante em minha história, por eu ter nascido em Petrolina, resolvi fazer um disco com músicas que falam sobre o rio e convidei, como participação especial, artistas dos estados por onde o rio passa. Tem Moraes Moreira, Alceu Valença, Ivete Sangalo, Djavan, Dominguinhos, Fernanda Takai, Maria Bethânia, Roberto Mendes e meu parceiro Geraldo Amaral, entre outros. Algumas músicas são regravações, como Barcarola do São Francisco, em dueto com Djavan, e o Ciúme, de Caetano Veloso, que dividi com Ivete, pois a música fala de Petrolina e de Juazeiro, que é a cidade natal dela. Outras músicas foram compostas por mim e meus parceiros especialmente para o projeto, que também produzirá um DVD com making off das gravações. Robertinho do Recife fez a produção musical, e está tudo muito bonito. É um projeto que se faz necessário, pois precisamos estar atentos para a questão da preservação das fontes de água potável que estão se esgotando e que são um item vital para toda a humanidade.

Discografia
Alceu Valença e Geraldo Azevedo (1972), Copacabana, LP
Geraldo Azevedo [s/d], LP
Bicho de Sete Cabeças [s/d], LP
Inclinações Musicais [s/d], LP
For All para todos (1982), Sigla, LP
Tempo Tempero (1983), LP
A Luz do Solo (1984), Polygram, LP
Cantoria I (com Elomar/Vital Farias/Xangai)(1984), Kuarup, CD
Eterno presente (1988), RCA, LP
Bossa tropical (1989), RCA, LP
Berekekê (1991), LP
Raízes e frutos [s/d], LP
Ao Vivo Comigo (1994) LP
Futuramérica (1996), LP
O Grande Encontro I (1996,) BMG
O Grande Encontro II, (1997), BMG
Hoje Amanhã (2000), BMG Brasil

Geraldo Azevedo

Por Marcio Phascoal*

Vem de Petrolina, Pernambuco, uma sonoridade autodidata, ímpar, divinal e bem mais real do que viver dos próprios sonhos. Sublime autor do dia mais branco em caravana de coqueiros que iluminou paraísos. Não é figura do pop nem recordista de vendagens, mas sua música reflete o princípio de um prazer, cantar talismã, um chorinho de criança ou o som de uma canção de despedida a uma moça bonita em copacabana, dentro de um táxi para lua ou numa barcarola em pleno são Francisco. O cantor e violonista Geraldo de Azevedo é um dos maiores compositores da música popular deste país, e suas inclinações musicais e geniais encantam e acalentam, numa prova certeira de que o sublime pode vir do simples, e não se trata de nenhuma mágica ou bicho de sete cabeças. É só arte.

*escritor e autor da biografia de João do vale.

Um Geral do Azevedo

Por Sérgio Cabral

Uma geral do Azevedo começa com um agradecimento de Geraldo Azevedo ao público pelo comparecimento à gravação
de seu primeiro DVD. Gravar o primeiro DVD, depois de tantos anos promovendo um dos mais felizes encontros de um artista com o público, foi uma grande surpresa até para quem, como eu, acompanha nossa música de perto. Alguém bobeou esse tempo todo.

Poderia ter classificado, no parágrafo acima, de alegres ou quentes, ou mesmo animados, os encontros de Geraldo com o público, mas tais adjetivos poderiam limitar o que, na verdade, ocorre quando ele canta para uma plateia sempre numerosa. Preferi chamá-los de felizes, porque, além de alegres, quentes e muito animados, eles produzem uma espécie de clima de felicidade, tanto quando ele canta as músicas que fazem o público dançar quanto quando encanta o povo com melodias maravilhosas.

Já que, finalmente, geraldo azevedo gravou um DVD, resta-me apenas comunicar que está à disposição de todos a oportunidade de viver a felicidade até então restrita a quem comparece a seus espetáculos. O DVD é, de fato, uma geral da obra desse extraordinário compositor, cantor e instrumentista. São músicas que você já conhece, algumas com uma trajetória que já pode ser contada em décadas, e todas elas fazendo parte dos muitos discos que Geraldo tem gravado. Mas, dessa vez, a gente o vê cantando e tocando seu magnífico violão, algumas vezes improvisando e muito bem acompanhado por um excelente grupo de instrumentistas, tudo isso reforçado pelos vocais de Clarice Azevedo e Roberta do Recife. Enfim, a gente se senta ao lado
do público para ouvir, dançar, emocionar-se com Menina do Lido cantada por ele e os filhos Clarice, Tiago e Lucas (a produção do espetáculo é das filhas Gabi e Lara). E mais: tudo isso com a fotografia de andré horta, os figurinos e cenário (criado a partir dos desenhos do próprio Geraldo Azevedo) de Mônica Martins, o alto-astral do Circo Voador e o presente especial para o público em forma de duas músicas inéditas: é o frevo, parceria com Geraldo Amaral, e é minha vida, que recebeu letra do poeta, parceiro e velho amigo, José Carlos Capinam. Juro que sou sincero quando manifesto a suspeita de que geraldo azevedo descobriu a fórmula da felicidade. Quem achar que exagero que veja o dvd uma geral do Azevedo.



 

 

 

 

 

 

 

"Tudo depende de se fazer por amor e é isso que gera encontros maravilhosos, e é o que importa."