43-OUT NOV DEZ 2009
 


» CONTO

A decoração de Natal do Hall
Léo João



- Ademir! Ô, Ademir! Deixa de ser inútil e passa pra mim a fraternidade.
- Ah, vai te catar! Tô ocupado aqui com a solidariedade.
Se vira, rapaz! Faz seu trabalho,
que eu faço o meu, falou?
- Ei, dava pra conversar menos e trabalhar mais? Se vocês não colaborarem, eu não saio daqui a tempo de pagar meu crediário.
- Pediu dinheiro emprestado de novo, Valmir? Mas você vive enrolado, hein!
- Ah, mas eu dividi em 20 prestações dessa vez. Os juros são pouca coisa. Só que preciso pagar hoje senão tem multa. nossa, essa placa da prosperidade aqui não fica em pé de jeito nenhum!
- Valmir, você me passa a placa da fraternidade aí embaixo? O Ademir é um inútil.
- Inútil é a mãe!
- Chicão, desculpe aí, mas eu só tenho mão para uma coisa só. Ou eu cuido da prosperidade ou da fraternidade. Falando nisso, quantas placas a gente ainda tem, hein?
- Faltam as placas da saúde, do amor e da paz. Não sei se tem espaço pra isso tudo não.
- Ah, mas o síndico mandou pendurar as plaquinhas todas no hall, junto com os enfeites.
- Ô puxa-saco, todo mundo aqui sabe disso. Mas você não tá vendo que não tem lugar?
- Coloca essa da saúde ali perto do rodapé.
- Mas a saúde vai ficar quase no chão!
- N ão tem outro lugar pra ela!
- Tá bom ali. Deixa a saúde de qualquer jeito.
As outras são mais complicadas de colocar.
- Nem fala! A prosperidade não se firma, não adianta!
- Só não pede ajuda ao Ademir, que ele é um inútil.
- Inútil é a mãe, sua peste!
- Calma aí, minha gente!
- Esse cabra tá me enchendo porque não ajudei com a placa dele! como vou ajudar ele se meu negócio é a solidariedade?
- Você é um inútil.
- Olhe, quer ver eu partir sua cara, seu infeliz? Quer ver? Quer ver?
- Chicão, esquece o Ademir e pega o amor agora. Ademir: morreu o assunto. Basta você pegar a paz e a gente encerra a decoração.
- A saúde tá torta.
- Deixa, essa aí ninguém vê. Onde você acha que pode ficar o amor?
- De repente lá no alto, acima de tudo.
- Não sei...
- Ou então bota o amor aqui ó, na altura das pessoas.
- Não sei...
- Talvez se fosse a primeira coisa a ser vista...
- Hum, não sei...
- Ah, faz o seguinte, então: quando souber, coloca você. Esse amor é pura perda de tempo. Por mim, não coloco em lugar nenhum.
- O síndico mandou colocar todos.
- Inútil e puxa-saco!
- Agora eu vou fazer você engolir o que disse!
- Ai! Me solta!
- Peraí, gente! calma! calma!
- Me solta desgraçado!
- Calma! Ei, cuidado aí com a placa da paz!