43-OUT NOV DEZ 2009
 


» CONDOMÍNIO

Saneando as despesas


Condomínios conseguem reduzir os gastos aliviando o bolso dos moradores

O ano era 2002, mês de março. Começava ali o racionamento de energia elétrica, um momento difícil para os brasileiros, tão acostumados com o desperdício. Mas nos condomínios, certas medidas de economia, como desligamento dos elevadores e substituição de lâmpadas incandescentes, não causaram apenas aborrecimento: ajudaram os síndicos a sair do vermelho. Entre os moradores, o período de privações acarretou também mudança de comportamento. Sete anos depois, será que os condomínios continuam preocupados com o desperdício? É o que vamos descobrir nesta matéria.

Síndico do condomínio solar das esmeraldas, com 11 andares e 22 unidades, em copacabana, Michel Chamovitz é o que se pode chamar de “salvador da lavoura”. Há seis anos no cargo, sempre teve como um de seus principais objetivos reduzir as despesas. “Ao assumir a função, fiz um diagnóstico e constatei que tínhamos excesso de funcionários, gasto exagerado de energia elétrica e ausência de uma política ambiental. Além disso, não tínhamos nenhuma fonte de receita externa. Foquei nesses pontos”, conta Michel, que exerce também as atividades de economista e advogado.

As despesas elevadas do condomínio, administrado pela CIPA, não tinham a ver somente com o consumo de água e energia elétrica. O quadro de funcionários também pesava no orçamento. um problema comum para os síndicos cariocas. de acordo com dados coletados pelo centro de Pesquisa e análise da informação do Secovi Rio, a folha de pagamento consome a maior parte da receita do condomínio: 35%. depois vem a conta de água, com 20%, seguida da manutenção (14%) e da energia elétrica (11%).

Os cinco empregados do edifício de Copacabana foram avisados de que haveria uma modificação no sistema de horas extras através da implantação da escala de 12x36 (12 horas trabalhadas por 36 horas de descanso). Com a alteração nos contratos de trabalho, os quatro porteiros e o faxineiro deixaram de fazer, em média, 40 horas extras por mês (cada um). O excedente de trabalho mensal ficou limitado entre duas e 15 horas. Isso sem falar que o custo com vale-transporte despencou.

O passo seguinte foi cuidar da conta de luz, que chegava a R$ 1,6 mil por mês. “Troquei as lâmpadas incandescentes por luzes frias e desliguei as minuterias nos andares, substituindo-as por sensores de presença”, explica. Ainda nesse tema, o síndico lembra que, por causa da corrosão das instalações hidráulicas, feitas de metal, a bomba precisava usar força extra para levar a água da cisterna até a caixa, consumindo mais energia. “Construímos a canalização de Pvc no prisma de ventilação do prédio e eliminamos esse problema. Antes a bomba precisava de duas horas para esse processo. hoje não passa de 30 minutos.”

Como se tudo isso não bastasse, Michel implantou a coleta seletiva de lixo, comprando contêineres apropriados e lançando mão de sacos especiais. “Para incentivar os empregados a separar o material, permitimos que eles vendessem o que quisessem às cooperativas de reciclagem”, ensina. Para completar, o síndico viu na telefonia uma maneira de aumentar a receita do condomínio. O aluguel pago por uma operadora que instalou uma antena de recepção e distribuição de sinais no prédio rende R$ 2,7 mil ao mês ao condomínio.

 

O preço de uma atitude ecológica

Muitos acreditam que implementar mudanças como essas é trabalhoso. Mas é mais simples do que parece, basta ter boa vontade. coordenadora da ong Reviverde, que realiza atividades de educação ambiental em condomínios residenciais e comerciais, Regina Laginestra revela que um projeto ecológico, ao contrário do que todos pensam, não envolve grandes investimentos. “Quais são os custos? Cestas
para acondicionar separadamente o material reciclável, coletores para pilhas e baterias e coletores coloridos para áreas de lazer, como churrasqueira ou piscina”, diz a especialista.

A Reviverde iniciou suas atividades em 1999. Desde então implantou a coleta seletiva em cerca de 50 condomínios residenciais de pequeno, médio e grande portes da Barra da Tijuca, de Botafogo, de Copacabana, do Méier, do Recreio, de São Conrado e da Tijuca. Também realizou o trabalho em
grandes empresas como Claro, Shell, Gafisa e construtora Even, além de fazer parcerias com administradoras de condomínios para o gerenciamento de resíduos nos edifícios.

“Cada condomínio é o retrato de seu síndico, pois é ele quem define prioridades, fiscaliza o cumprimento das obrigações, delega tarefas. muitos ainda não despertaram para a consciência ecológica, mas os moradores estão se mobilizando, cobrando, procurando informações”, reforça Regina, acrescentando: “Recebemos muitos e-mails e telefonemas de moradores que querem levar a coleta seletiva para seus edifícios. Infelizmente, se o síndico achar que não é uma prioridade, que dá trabalho ou que não tem muita importância, nada vai acontecer.”

Não foi o caso do condomínio Torre Ernest Hemingway, da Barra da tijuca, que conta com administração própria. Desde
2002, o síndico Júlio César Figueiredo vem dando toda a atenção ao material reciclável. Em 1998, quando foi inaugurado o prédio de 175 unidades, o lixo recolhido pelos funcionários era integralmente destinadoà comlurb. “Os moradores jogavam tudo pelo tubo coletor, inclusive garrafas
de vidro e Pet, jornais, papelões e outros itens, o que acabou danificando as peças do compactador”, lembra.

O lixo em excesso se acumulou no tubo coletor, causando mau cheiro nos andares. Até um dia em que houve perda total do compactador. “Tivemos que gastar uma quantia vultosa para comprar um novo. Era um dinheiro que poderíamos ter empregado em outras áreas.” A partir de então, o síndico correu atrás do prejuízo: visitou condomínios
vizinhos em que a coleta seletiva havia sido implantada com sucesso.

Através de divulgação em assembleias, circulares e avisos, os moradores foram orientados a depositar no tubo coletor
apenas os resíduos orgânicos. Latinhas de alumínio, papelões, jornais, garrafas Pet e quaisquer outros materiais recicláveis passaram a ser ensacados e separados no cantinho das lixeiras. Os funcionários também receberam orientação.“Não foi fácil. Muitos moradores e secretárias domésticas continuavam com o velho hábito. Intensificamos a campanha educativa, fornecendo mais orientação e fazendo reuniões regulares”, disse. Deu certo: houve redução de 60% de material reciclável dentro do compactador. O gasto com o equipamento ficou restrito apenas à manutenção preventiva, o que gerou economia de 40%. “Conseguimos receber e separar todo o material. A empresa coletora recolhe os itens duas vezes ao mês e toda a verba arrecadada é repartida entre os 34 funcionários, inclusive os terceirizados.”

Aprender a cuidar do lixo é imprescindível. Uma maneira inteligente de fazê-lo é estabelecer um método prático, adequado e higiênico de tratar o descarte, sem incomodar os moradores e sem que isso represente uma carga mais pesada de trabalho para a equipe de limpeza. “Os edifícios modernos já aboliram o terrível duto coletor, que gera muita sujeira, atrai ratos, baratas e outros insetos”, diz Regina, da Reviverde. Isso sem falar que os dutos podem entupir com grandes volumes descartados nos andares. Fora que os sacos plásticos rasgam no meio do caminho e o resto de comida fica grudado ali.

Quando são feitos de Pvc, os dutos ressecam e aparecem as rachaduras, nas quais ficam os resíduos. no depósito final, por conta da ferrugem, surgem buracos na lataria, por onde espirram o resto de material orgânico, fazendo com que o compartimento se transforme em um lixão a céu aberto. “os edifícios antigos estão fechando os dutos coletores e substituindo-os pela lixeira em cada andar para o descarte do lixo comum”, completa a especialista.

Unindo ecologia a ação social

No condomínio do Edifício General Serejo, em Ipanema, a síndica Maria Amélia Loureiro foi além da simples coleta seletiva. Ela reuniu nada menos que 20 condomínios do bairro e os convenceu a adotar a ideia em conjunto. “comecei convocando os síndicos de dois quarteirões para uma apresentação que incluiu palestra, vídeo e distribuição de material informativo. Cerca de 60% dos convidados compareceram e abraçaram a causa”, descreve Maria Amélia. Primeiro passo dado, partiu-se para a prática: foi distribuído material explicativo aos moradores.

Paralelamente, o grupo selecionou o parceiro que receberia, como doação, todo o material: a cooperativa de catadores do
complexo do alemão, localizada em uma das áreas mais carentes da cidade. “A iniciativa trouxe luz e esperança para a cooperativa, uma vez que se tornou uma fonte de renda para os catadores. Eles também desenvolvem projetos sociais na comunidade, como construção de creche, alfabetização de adultos, planejamento familiar e mutirão de limpeza dos rios da região. Nós estamos comemorando o resultado, queremos melhorar a qualidade de vida em nosso bairro”, emociona-se Maria Amélia, que conta com o auxílio da CIPA para a administração do condomínio. Para Regina Laginestra, não importa o quanto de lixo um edifício descarte: “lixo é lixo, não interessa o volume, se grande ou pequeno. O que é preciso ter em conta é sua destinação. senão, vejamos: se todos os pequenos prédios não fizerem a separação, isso significa uma grande produção de lixo reciclável sendo misturado com o lixo comum”, pondera, batendo na tecla que os administradores devem olhar a questão com carinho. “Sempre há espaços disponíveis para a separação do lixo, tanto nos compartimentos das lixeiras dos andares quanto no depósito do compactador, que geralmente fica na garagem.”

Embora estejamos falando de bons exemplos, ainda falta muito para que a cidade ganhe mais condomínios verdes. um condomínio verde é aquele que segue a filosofia da sustentabilidade. E o que seria um condomínio sustentável? É o que atende às necessidades dos moradores sem comprometer os recursos naturais necessáriosàs gerações futuras.

“Podemos identificar um condomínio verde pelas ações que são promovidas para a redução de desperdício de água ou o aproveitamento da luz natural, entre outras atitudes. Alguns exemplos seriam a captação da água da chuva a utilização de água de poço artesiano para lavagem de carros, para a rega do jardim ou para a limpeza dasáreas externas. utilização de sensores nos andares, nas escadas e na garagem. E, é claro, a coleta seletiva de lixo. É um conjunto de ações”, exemplifica Regina.

Ajuda que vem do céu

Um dia a água do planeta vai acabar. A frase pode parecer fatalista demais, ou até mesmo exagerada, mas os ambientalistas mais radicais garantem: é a pura verdade. Por isso, além da captação da água da chuva, que vem se tornado uma realidade em muitos edifícios cariocas, toda ajuda é bem-vinda. A instalação de hidrômetros individuais é uma delas.

O vice-presidente de Assuntos Condominiais do Secovi Rio, Leonardo Schneider, afirma que os condomínios que adotam a medição individual de água conseguem uma economia na conta de água de 40% a 50%. Além disso, o condomínio também economiza na conta de energia elétrica e na manutenção das instalações hidráulicas, porque as bombas passam a trabalhar bem menos. Além de ser um bom negócio, é ótimo também para o meio ambiente.

A Lei nº 4.393, de 16 de setembro de 2004, determina, em seu artigo primeiro, que as empresas projetistas e de construção civil no estado do Rio ficam “obrigadas a prover coletores, caixa de armazenamento e distribuidores para água da chuva, nos projetos de empreendimentos residenciais que abriguem mais de 50 famílias ou nos de empreendimentos comerciais com mais que 50 m² de área construída”.

O artigo segundo da referida lei diz que a caixa coletora de água da chuva deverá ser proporcional ao número de unidades habitacionais nos empreendimentos residenciais ou à área construída nos empreendimentos comerciais. A utilização da água da chuva deve estar voltada para uso secundário, como lavagem de prédios e automóveis, rega de
jardins e limpeza, não podendo ser usada nas canalizações de água potável.

Atenção ao desperdício

É preciso prestar atenção nos três Rs da consciência ecológica: reduzir, reutilizar e reciclar. Quando reduzimos, evitamos o desperdício de recursos naturais e diminuímos as despesas que são rateadas por todos. o mais importante – porque faz diferença no bolso e no planeta – é a economia da água, um bem precioso e um recurso finito que pode acabar se continuarmos consumindo de maneira irresponsável, como se fosse algo inesgotável. o gasto de energia elétrica também deve ser considerado.

Saiba por que é tão importante economizar água e energia elétrica:

• A torneira aberta, enquanto se lava a louça ou na hora de escovar os dentes, desperdiça de 10 litros a 20 litros por minuto;

• Uma torneira que goteja lentamente perde 50 litros de água por dia;

• Se multiplicarmos esses valores por um total de 200 ou 500 apartamentos, dá para ter uma noção dos números assustadores e do dinheiro que está indo literalmente pelo ralo;

• Com relação à economia de energia, deve-ser usar o mesmo bom senso: o que está sendo desperdiçado não volta, mas a conta no final do mês chega;

• O maior desperdício de energia é causado pela impaciência do morador que espera o elevador e aperta o botão de todos os andares. Por isso é importante o revezamento no funcionamento dos elevadores;

• Pode-se diminuir também a conta da luz controlando-se a frequência à sauna, que, muitas vezes, fica ligada sem que ninguém a utilize;

• Os sensores de luz nos andares, felizmente, já são uma regra comum em quase todos os edifícios. trata-se de uma solução criativa para reduzir energia.

Pilhas e lâmpadas, como descartá-las

O descarte de lâmpadas fluorescentes, pilhas e baterias ainda é um problema no Brasil e no mundo. Com relação às lâmpadas, foi acesa uma “luz no final do túnel” com a lei nº 41.752/09, publicada no diário oficial no dia 18 de março de 2009, que torna obrigatória a coleta de lâmpadas fluorescentes pelos estabelecimentos que comercializam o produto, sendo eles fabricantes, distribuidores, importadores, revendedores ou comerciantes.

Esses estabelecimentos deverão instalar os recipientes de coleta em locais de fácil visualização e alertar o usuário, através de aviso escrito, sobre a importância do correto descarte dos produtos e os riscos que eles representam para a saúde e o meio ambiente quando não tratados com o devido cuidado.

A lei estabelece ainda multa diária de R$ 170 ao estabelecimento que não cumprir a determinação, cobrando em dobro em caso de reincidência. as pilhas e baterias também podem ser descartadas corretamente em qualquer agência do Banco Real, que tem um “papa-pilhas”, ou nos coletores específicos (de cor verde fluorescente) que a comlurb colocou em algumas ruas, na entrada de shopping centers e supermercados. Desses pontos, elas são encaminhadas para a reciclagem.

Reciclagem de lixo é lei

A lei municipal de limpeza urbana nº 4.969, de 3 de dezembro de 2008, torna obrigatória a separação do lixo comum e do lixo reciclável. Portanto, se um dia a fiscalização
resolver visitar qualquer prédio, ele poderá ser multado se ainda estiver misturando todo o seu lixo.

Regina laginestra acredita que a coleta seletiva deve ser um hábito que começa dentro de casa, por isso independe do tamanho do condomínio. todo edifício pode e deve adotar o sistema de coleta seletiva de lixo em seu regulamento interno. a palavra- chave é separar. se o lixo estiver misturado, os recicláveis estarão contaminados e impróprios para o reaproveitamento.

Mesmo que não passe nenhum caminhão da coleta seletiva, a ONG Reviverde recomenda a separação. Esse material pode ser doado para os catadores que percorrem as ruas ou deixado nos pontos de entrega voluntária que já existem em alguns supermercados, como o extra da Barra da Tijuca e o Pão de Açúcar. Na Zona Sul do Rio, o caminhão da coleta seletiva da Comlurb percorre as ruas em dias e horários determinados. É só entrar no site da comlurb e verificar quais são as vias que constam do itinerário: www.rio. rj.gov.br/comlurb.

 

 





O síndico do condomínio Solar das Esmeraldas, Michel Chamovitz, assumiu o cargo há cerca de seis anos e reduziu drasticamente as despesas: fiz um diagnóstico e constatei que tínhamos excesso de funcionários, gasto exagerado de energia elétrica e ausência de uma política ambiental. Além disso, não tínhamos nenhuma fonte de receita externa. Foquei nesses pontos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Regina Laginestra é coordenadora da ONG Reviverde, que realiza atividades de educação ambiental em condomínios residenciais e comerciais. Ela afirma que um projeto ecológico não envolve grandes investimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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