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Condomínios conseguem reduzir os gastos aliviando o bolso dos moradores

O ano era 2002, mês de março. Começava
ali o racionamento de energia elétrica,
um momento difícil para os brasileiros, tão
acostumados com o desperdício. Mas nos
condomínios, certas medidas de economia,
como desligamento dos elevadores e substituição
de lâmpadas incandescentes, não
causaram apenas aborrecimento: ajudaram
os síndicos a sair do vermelho. Entre os moradores,
o período de privações acarretou
também mudança de comportamento. Sete
anos depois, será que os condomínios continuam
preocupados com o desperdício? É o
que vamos descobrir nesta matéria.
Síndico do condomínio solar das esmeraldas,
com 11 andares e 22 unidades, em
copacabana, Michel Chamovitz é o que se
pode chamar de “salvador da lavoura”. Há
seis anos no cargo, sempre teve como um de
seus principais objetivos reduzir as despesas.
“Ao assumir a função, fiz um diagnóstico e
constatei que tínhamos excesso de funcionários,
gasto exagerado de energia elétrica
e ausência de uma política ambiental. Além
disso, não tínhamos nenhuma fonte de receita
externa. Foquei nesses pontos”, conta
Michel, que exerce também as atividades de
economista e advogado.
As despesas elevadas do condomínio,
administrado pela CIPA, não tinham a ver
somente com o consumo de água e energia
elétrica. O quadro de funcionários também
pesava no orçamento. um problema comum
para os síndicos cariocas. de acordo
com dados coletados pelo centro de Pesquisa
e análise da informação do Secovi Rio, a folha de pagamento consome a
maior parte da receita do condomínio:
35%. depois vem a conta de água, com
20%, seguida da manutenção (14%) e
da energia elétrica (11%).
Os cinco empregados do edifício
de Copacabana foram avisados de que
haveria uma modificação no sistema de
horas extras através da implantação da
escala de 12x36 (12 horas trabalhadas
por 36 horas de descanso). Com a alteração
nos contratos de trabalho, os
quatro porteiros e o faxineiro deixaram
de fazer, em média, 40 horas extras por
mês (cada um). O excedente de trabalho
mensal ficou limitado entre duas e 15
horas. Isso sem falar que o custo com
vale-transporte despencou.
O passo seguinte foi cuidar da conta
de luz, que chegava a R$ 1,6 mil
por mês. “Troquei as lâmpadas incandescentes
por luzes frias e desliguei as
minuterias nos andares, substituindo-as
por sensores de presença”, explica. Ainda
nesse tema, o síndico lembra que,
por causa da corrosão das instalações
hidráulicas, feitas de metal, a bomba
precisava usar força extra para levar a água da cisterna até a caixa, consumindo
mais energia. “Construímos a canalização
de Pvc no prisma de ventilação
do prédio e eliminamos esse problema.
Antes a bomba precisava de duas horas
para esse processo. hoje não passa de
30 minutos.”
Como se tudo isso não bastasse, Michel
implantou a coleta seletiva de lixo,
comprando contêineres apropriados e
lançando mão de sacos especiais. “Para
incentivar os empregados a separar o
material, permitimos que eles vendessem
o que quisessem às cooperativas
de reciclagem”, ensina. Para completar,
o síndico viu na telefonia uma maneira
de aumentar a receita do condomínio. O aluguel pago por uma operadora que
instalou uma antena de recepção e distribuição
de sinais no prédio rende R$
2,7 mil ao mês ao condomínio.
O preço de uma atitude ecológica
Muitos acreditam que implementar
mudanças como essas é trabalhoso. Mas é mais simples do que parece, basta ter
boa vontade. coordenadora da ong Reviverde,
que realiza atividades de educação
ambiental em condomínios residenciais e
comerciais, Regina Laginestra revela que
um projeto ecológico, ao contrário do
que todos pensam, não envolve grandes
investimentos. “Quais são os custos? Cestas
para acondicionar separadamente o
material reciclável, coletores para pilhas e
baterias e coletores coloridos para áreas
de lazer, como churrasqueira ou piscina”,
diz a especialista.
A Reviverde iniciou suas atividades em
1999. Desde então implantou a coleta seletiva
em cerca de 50 condomínios residenciais
de pequeno, médio e grande portes da
Barra da Tijuca, de Botafogo, de Copacabana,
do Méier, do Recreio, de São Conrado e da Tijuca. Também realizou o trabalho em
grandes empresas como Claro, Shell, Gafisa
e construtora Even, além de fazer parcerias
com administradoras de condomínios para
o gerenciamento de resíduos nos edifícios.
“Cada condomínio é o retrato de seu
síndico, pois é ele quem define prioridades,
fiscaliza o cumprimento das obrigações,
delega tarefas. muitos ainda não despertaram
para a consciência ecológica, mas os
moradores estão se mobilizando, cobrando,
procurando informações”, reforça Regina,
acrescentando: “Recebemos muitos e-mails
e telefonemas de moradores que querem levar
a coleta seletiva para seus edifícios. Infelizmente,
se o síndico achar que não é uma
prioridade, que dá trabalho ou que não tem
muita importância, nada vai acontecer.”
Não foi o caso do condomínio Torre Ernest
Hemingway, da Barra da tijuca, que conta com administração própria. Desde
2002, o síndico Júlio César Figueiredo vem
dando toda a atenção ao material reciclável.
Em 1998, quando foi inaugurado
o prédio de 175 unidades, o lixo recolhido
pelos funcionários era integralmente destinadoà comlurb. “Os moradores jogavam
tudo pelo tubo coletor, inclusive garrafas
de vidro e Pet, jornais, papelões e outros
itens, o que acabou danificando as peças
do compactador”, lembra.
O lixo em excesso se acumulou no tubo
coletor, causando mau cheiro nos andares.
Até um dia em que houve perda total do
compactador. “Tivemos que gastar uma
quantia vultosa para comprar um novo. Era
um dinheiro que poderíamos ter empregado
em outras áreas.” A partir de então, o síndico
correu atrás do prejuízo: visitou condomínios
vizinhos em que a coleta seletiva
havia sido implantada com sucesso.
Através de divulgação em assembleias,
circulares e avisos, os moradores foram
orientados a depositar no tubo coletor
apenas os resíduos orgânicos. Latinhas de
alumínio, papelões, jornais, garrafas Pet e
quaisquer outros materiais recicláveis passaram
a ser ensacados e separados no cantinho
das lixeiras. Os funcionários também
receberam orientação.“Não foi fácil. Muitos moradores e secretárias
domésticas continuavam com o velho hábito. Intensificamos a campanha
educativa, fornecendo mais orientação
e fazendo reuniões regulares”, disse. Deu
certo: houve redução de 60% de material
reciclável dentro do compactador. O gasto
com o equipamento ficou restrito apenas à
manutenção preventiva, o que gerou economia
de 40%. “Conseguimos receber e separar
todo o material. A empresa coletora
recolhe os itens duas vezes ao mês e toda
a verba arrecadada é repartida entre os 34
funcionários, inclusive os terceirizados.”
Aprender a cuidar do lixo é imprescindível.
Uma maneira inteligente de fazê-lo é
estabelecer um método prático, adequado
e higiênico de tratar o descarte, sem incomodar
os moradores e sem que isso represente
uma carga mais pesada de trabalho
para a equipe de limpeza. “Os edifícios modernos
já aboliram o terrível duto coletor,
que gera muita sujeira, atrai ratos, baratas
e outros insetos”, diz Regina, da Reviverde.
Isso sem falar que os dutos podem entupir
com grandes volumes descartados nos andares.
Fora que os sacos plásticos rasgam
no meio do caminho e o resto de comida
fica grudado ali.
Quando são feitos de Pvc, os dutos
ressecam e aparecem as rachaduras, nas
quais ficam os resíduos. no depósito final,
por conta da ferrugem, surgem buracos na
lataria, por onde espirram o resto de material
orgânico, fazendo com que o compartimento
se transforme em um lixão a céu
aberto. “os edifícios antigos estão fechando
os dutos coletores e substituindo-os
pela lixeira em cada andar para o descarte
do lixo comum”, completa a especialista.
Unindo ecologia a ação social
No condomínio do Edifício General Serejo,
em Ipanema, a síndica Maria Amélia
Loureiro foi além da simples coleta seletiva.
Ela reuniu nada menos que 20 condomínios
do bairro e os convenceu a adotar a
ideia em conjunto. “comecei convocando
os síndicos de dois quarteirões para uma
apresentação que incluiu palestra, vídeo e
distribuição de material informativo. Cerca
de 60% dos convidados compareceram e
abraçaram a causa”, descreve Maria Amélia.
Primeiro passo dado, partiu-se para a
prática: foi distribuído material explicativo
aos moradores.
Paralelamente, o grupo selecionou o
parceiro que receberia, como doação, todo
o material: a cooperativa de catadores do
complexo do alemão, localizada em uma
das áreas mais carentes da cidade. “A iniciativa
trouxe luz e esperança para a cooperativa,
uma vez que se tornou uma fonte
de renda para os catadores. Eles também
desenvolvem projetos sociais na comunidade,
como construção de creche, alfabetização
de adultos, planejamento familiar
e mutirão de limpeza dos rios da região.
Nós estamos comemorando o resultado,
queremos melhorar a qualidade de vida em
nosso bairro”, emociona-se Maria Amélia,
que conta com o auxílio da CIPA para a administração
do condomínio.
Para Regina Laginestra, não importa o
quanto de lixo um edifício descarte: “lixo é lixo, não interessa o volume, se grande
ou pequeno. O que é preciso ter em conta é sua destinação. senão, vejamos: se todos
os pequenos prédios não fizerem a separação,
isso significa uma grande produção
de lixo reciclável sendo misturado
com o lixo comum”, pondera, batendo
na tecla que os administradores devem
olhar a questão com carinho. “Sempre
há espaços disponíveis para a separação
do lixo, tanto nos compartimentos das
lixeiras dos andares quanto no depósito
do compactador, que geralmente fica
na garagem.”
Embora estejamos falando de bons
exemplos, ainda falta muito para que
a cidade ganhe mais condomínios verdes.
um condomínio verde é aquele
que segue a filosofia da sustentabilidade.
E o que seria um condomínio
sustentável? É o que atende às necessidades
dos moradores sem comprometer
os recursos naturais necessáriosàs gerações futuras.
“Podemos identificar um condomínio
verde pelas ações que são promovidas
para a redução de desperdício
de água ou o aproveitamento da luz
natural, entre outras atitudes. Alguns
exemplos seriam a captação da água
da chuva a utilização de água de poço
artesiano para lavagem de carros, para
a rega do jardim ou para a limpeza dasáreas externas. utilização de sensores
nos andares, nas escadas e na garagem.
E, é claro, a coleta seletiva de lixo. É um
conjunto de ações”, exemplifica Regina.
Ajuda que vem do céu
Um dia a água do planeta vai acabar.
A frase pode parecer fatalista demais, ou
até mesmo exagerada, mas os ambientalistas
mais radicais garantem: é a pura
verdade. Por isso, além da captação da água da chuva, que vem se tornado uma
realidade em muitos edifícios cariocas,
toda ajuda é bem-vinda. A instalação de
hidrômetros individuais é uma delas.
O vice-presidente de Assuntos Condominiais
do Secovi Rio, Leonardo Schneider,
afirma que os condomínios que
adotam a medição individual de água
conseguem uma economia na conta de água de 40% a 50%. Além disso, o condomínio
também economiza na conta
de energia elétrica e na manutenção
das instalações hidráulicas, porque as
bombas passam a trabalhar bem menos.
Além de ser um bom negócio, é ótimo
também para o meio ambiente.
A Lei nº 4.393, de 16 de setembro de
2004, determina, em seu artigo primeiro,
que as empresas projetistas e de construção
civil no estado do Rio ficam “obrigadas
a prover coletores, caixa de armazenamento
e distribuidores para água da chuva, nos
projetos de empreendimentos residenciais
que abriguem mais de 50 famílias ou nos
de empreendimentos comerciais com mais
que 50 m² de área construída”.
O artigo segundo da referida lei diz
que a caixa coletora de água da chuva
deverá ser proporcional ao número de
unidades habitacionais nos empreendimentos
residenciais ou à área construída
nos empreendimentos comerciais. A
utilização da água da chuva deve estar
voltada para uso secundário, como lavagem
de prédios e automóveis, rega de
jardins e limpeza, não podendo ser usada
nas canalizações de água potável.
Atenção ao desperdício
É preciso prestar atenção nos três Rs da consciência ecológica: reduzir, reutilizar e reciclar. Quando reduzimos, evitamos o desperdício
de recursos naturais e diminuímos as despesas que são rateadas por todos. o mais importante – porque faz diferença no bolso e no planeta – é a economia da água, um bem precioso e um recurso finito que pode acabar se continuarmos consumindo de maneira irresponsável,
como se fosse algo inesgotável. o gasto de energia elétrica também deve ser considerado.
Saiba por que é tão importante
economizar água e energia elétrica:
• A torneira aberta, enquanto se lava a louça
ou na hora de escovar os dentes, desperdiça
de 10 litros a 20 litros por minuto;
• Uma torneira que goteja lentamente
perde 50 litros de água por dia;
• Se multiplicarmos esses valores por um
total de 200 ou 500 apartamentos, dá
para ter uma noção dos números assustadores
e do dinheiro que está indo
literalmente pelo ralo;
• Com relação à economia de energia,
deve-ser usar o mesmo bom senso: o
que está sendo desperdiçado não volta,
mas a conta no final do mês chega;
• O maior desperdício de energia é causado
pela impaciência do morador que espera
o elevador e aperta o botão de todos os
andares. Por isso é importante o revezamento
no funcionamento dos elevadores;
• Pode-se diminuir também a conta da
luz controlando-se a frequência à sauna,
que, muitas vezes, fica ligada sem
que ninguém a utilize;
• Os sensores de luz nos andares, felizmente,
já são uma regra comum em quase
todos os edifícios. trata-se de uma solução
criativa para reduzir energia.
Pilhas e lâmpadas, como descartá-las
O descarte de lâmpadas fluorescentes,
pilhas e baterias ainda é um problema no
Brasil e no mundo. Com relação às lâmpadas,
foi acesa uma “luz no final do túnel”
com a lei nº 41.752/09, publicada no diário
oficial no dia 18 de março de 2009,
que torna obrigatória a coleta de lâmpadas
fluorescentes pelos estabelecimentos
que comercializam o produto, sendo eles
fabricantes, distribuidores, importadores,
revendedores ou comerciantes.
Esses estabelecimentos deverão instalar
os recipientes de coleta em locais de
fácil visualização e alertar o usuário, através
de aviso escrito, sobre a importância
do correto descarte dos produtos e os riscos
que eles representam para a saúde e o
meio ambiente quando não tratados com
o devido cuidado.
A lei estabelece ainda multa diária de
R$ 170 ao estabelecimento que não cumprir
a determinação, cobrando em dobro
em caso de reincidência. as pilhas e baterias
também podem ser descartadas corretamente
em qualquer agência do Banco
Real, que tem um “papa-pilhas”, ou nos
coletores específicos (de cor verde fluorescente) que a comlurb colocou em algumas
ruas, na entrada de shopping centers
e supermercados. Desses pontos, elas são
encaminhadas para a reciclagem.
Reciclagem de lixo é lei
A lei municipal de limpeza urbana nº
4.969, de 3 de dezembro de 2008, torna
obrigatória a separação do lixo comum e
do lixo reciclável. Portanto, se um dia a fiscalização
resolver visitar qualquer prédio,
ele poderá ser multado se ainda estiver
misturando todo o seu lixo.
Regina laginestra acredita que a coleta
seletiva deve ser um hábito que começa
dentro de casa, por isso independe do tamanho
do condomínio. todo edifício pode
e deve adotar o sistema de coleta seletiva
de lixo em seu regulamento interno. a palavra-
chave é separar. se o lixo estiver misturado,
os recicláveis estarão contaminados e
impróprios para o reaproveitamento.
Mesmo que não passe nenhum caminhão
da coleta seletiva, a ONG Reviverde
recomenda a separação. Esse material pode
ser doado para os catadores que percorrem
as ruas ou deixado nos pontos de entrega
voluntária que já existem em alguns
supermercados, como o extra da Barra da
Tijuca e o Pão de Açúcar.
Na Zona Sul do Rio, o caminhão da coleta
seletiva da Comlurb percorre as ruas
em dias e horários determinados. É só entrar
no site da comlurb e verificar quais são
as vias que constam do itinerário: www.rio.
rj.gov.br/comlurb.
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O síndico do condomínio Solar das Esmeraldas, Michel Chamovitz, assumiu o cargo há cerca de seis anos e reduziu drasticamente as despesas: fiz um diagnóstico e constatei que tínhamos excesso de funcionários, gasto exagerado de energia elétrica e ausência de uma política ambiental. Além disso, não tínhamos nenhuma fonte de receita externa. Foquei nesses pontos.


Regina Laginestra é coordenadora da ONG Reviverde, que realiza atividades de educação ambiental em condomínios residenciais e comerciais. Ela afirma que um projeto ecológico não envolve grandes investimentos.

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