43-OUT NOV DEZ 2009
 


» ARTE

Giovanni Batista Castagneto
Mário Mendonça


Terminamos nosso pequeno e simplificado curso de artes plásticas. entretanto, ele não pode ser considerado um curso, e sim uma leitura sucinta da história da arte para despertar no leitor o interesse para que ele se aprofunde nessa matéria, seja por meio de cursos, seja por meio de leitura. nossa intenção é motivar nossos leitores da revista Condomínio a procurar um dos mais importantes segmentos da vida: a arte.

Agora estamos livres para apresentar artistas. Não os mais conhecidos, mas outros também grandes, porém desconhecidos do público leigo. hoje falaremos um pouco sobre Giovanni Batista Castagneto ou simplesmente castagneto (1851-1900).

Jornal do CoMMercio, 1900:
“Faleceu sábado, obscuramente, em uma casa de saúde na Rua são clemente, ignorado de quantos o conheciam e o apreciavam, o estimado artista G. B. Castagneto, o marinhista conhecido por todos e que deixa disseminadas em um sem-número de quadros e estudos partículas fulgurantes
do seu grande e original talento.”

Hoje, mais de 100 anos depois, ele é reconhecido e seus inúmeros trabalhos, em grande parte pintados em tampas de pequenas caixas de charutos (excelente cedro), alcançam altos preços nos leilões atuais.

Registrou em sua arte o que mais amava: o mar. não havia recanto do Rio de Janeiro que ele não conhecesse, era o comentário da época. Filho de marinheiro italiano, nasceu artista e marinheiro. como o mar, seu temperamento era rebelde. Ama e odeia. É manso e irascível. Sentiu que o ensino acadêmico, em vez de ajudá-lo, atrapalhava-o. abandonou a academia, veio para o Brasil e aprendeu sozinho.

Arranjou uma caixa de tintas, comprou cartões e telas, alugou um barco e partiu para uma viagem por nossas praias. Não quis saber nem de leis ou de regras. Precisava somente da natureza, principalmente do movimento e das ondas do mar. Passava um barco a vela e ele, febril, punho
ligeiro, vista firme, em três ou quatro segundos capturava a cena em sua tela. Esse processo, emotivo e desenfreado, exigia do artista braço rápido e certo, toque exato e visão precisa.

Assim era castagneto, um caçador de telas belas, um caçador da beleza. sua paleta é um caos, só ele poderia utilizá-la: tintas misturadas sem ordem, total confusão; mas um cérebro forte que comandava uma mão firme, que transformava o caos em quadro, belo, forte, emocionante. como a criação do mundo.

Nasceu em Gênova, em 27 de novembro de 1851, e chegou ao Rio em 1877. No Rio, seus quadros retratam as barcas ancoradas na Ponta do caju, na Praia de Santa Luzia e o litoral da baía. em 1885, seu pai, Lorenzo Castagneto, falece. o pintor cai na vida boêmia, cada vez mais introvertido e rude; reside ora em casa de um amigo ora na de outro, não tem endereço fixo. Nossos críticos da época (como os críticos
atrapalham...) o aconselham a sair do Rio de Janeiro e ir para itália estudar, pois isso o fará cem vezes melhor. Para esses medíocres (felizmente, hoje temos menos), o que vale é a técnica, e não a emoção – até Van Gogh passou por isso.

Castagneto quase volta para itália. D. Pedro Augusto, da família imperial, lhe encomenda uma obra para presentear o
encouraçado chileno Almirante Cochrane. A tela, depois de pronta, é exibida a toda a corte e à família imperial no famoso e histórico Baile da Ilha Fiscal, última festa da monarquia brasileira que, seis dias depois, estaria extinta com a proclamação da República. Nosso pintor passa a ser reconhecido e respeitado.

Em novembro de 1890, ajudado por diversos amigos, embarca para a França (Bordeaux e depois Paris); é sua temporada europeia, na qual encontra sua maturidade como pintor e permanece lá por sete anos. Volta ao Brasil e adquire, em santos, uma moléstia que o enfraquece muito. Restabelecido, dedica-se a pintar Paquetá, onde passaria seus últimos anos de vida. em 1899, seu estado de saúde piora, agravado pelo alcoolismo, que o impede de pintar. desenha para sobreviver. É internado em uma casa de saúde de Botafogo - Rua São Clemente, 146.

Falece às 9 horas da manhã de 29 de dezembro de 1900, sendo enterrado no dia 2 de janeiro de 1901. ninguém soube que havia falecido um grande pintor, que não imitou ninguém e que ninguém conseguiu imitar. o maior marinhista brasileiro, a quem Pancetti (sem tirar seu valor) deveria pedir a bênção e beijar a mão.



1. Navio Ancorado, 1886



2. Barco de Pesca Ancorado em Toulon (França), 1893


3. Enseada com Barco na Ilha de Paquetá, 1898