
Terminamos nosso pequeno e simplificado curso de artes plásticas. entretanto, ele
não pode ser considerado um curso, e sim
uma leitura sucinta da história da arte para
despertar no leitor o interesse para que ele
se aprofunde nessa matéria, seja por meio
de cursos, seja por meio de leitura. nossa intenção
é motivar nossos leitores da revista
Condomínio a procurar um dos mais importantes
segmentos da vida: a arte.
Agora estamos livres para apresentar
artistas. Não os mais conhecidos, mas outros
também grandes, porém desconhecidos
do público leigo.
hoje falaremos um pouco sobre Giovanni
Batista Castagneto ou simplesmente
castagneto (1851-1900).
Jornal do CoMMercio, 1900:
“Faleceu sábado, obscuramente, em
uma casa de saúde na Rua são clemente,
ignorado de quantos o conheciam e o apreciavam,
o estimado artista G. B. Castagneto,
o marinhista conhecido por todos e que
deixa disseminadas em um sem-número
de quadros e estudos partículas fulgurantes
do seu grande e original talento.”
Hoje, mais de 100 anos depois, ele é reconhecido
e seus inúmeros trabalhos, em
grande parte pintados em tampas de pequenas
caixas de charutos (excelente cedro),
alcançam altos preços nos leilões atuais.
Registrou em sua arte o que mais
amava: o mar. não havia recanto do Rio
de Janeiro que ele não conhecesse, era o
comentário da época. Filho de marinheiro
italiano, nasceu artista e marinheiro. como o mar, seu temperamento era rebelde. Ama
e odeia. É manso e irascível. Sentiu que
o ensino acadêmico, em vez de ajudá-lo,
atrapalhava-o. abandonou a academia,
veio para o Brasil e aprendeu sozinho.
Arranjou uma caixa de tintas, comprou
cartões e telas, alugou um barco e partiu
para uma viagem por nossas praias. Não
quis saber nem de leis ou de regras. Precisava
somente da natureza, principalmente
do movimento e das ondas do mar. Passava
um barco a vela e ele, febril, punho
ligeiro, vista firme, em três ou quatro segundos
capturava a cena em sua tela. Esse
processo, emotivo e desenfreado, exigia do
artista braço rápido e certo, toque exato e
visão precisa.
Assim era castagneto, um caçador de
telas belas, um caçador da beleza. sua paleta é um caos, só ele poderia utilizá-la:
tintas misturadas sem ordem, total confusão;
mas um cérebro forte que comandava
uma mão firme, que transformava o
caos em quadro, belo, forte, emocionante.
como a criação do mundo.
Nasceu em Gênova, em 27 de novembro
de 1851, e chegou ao Rio em 1877. No
Rio, seus quadros retratam as barcas ancoradas
na Ponta do caju, na Praia de Santa
Luzia e o litoral da baía. em 1885, seu pai,
Lorenzo Castagneto, falece. o pintor cai na
vida boêmia, cada vez mais introvertido
e rude; reside ora em casa de um amigo
ora na de outro, não tem endereço fixo.
Nossos críticos da época (como os críticos
atrapalham...) o aconselham a sair do Rio
de Janeiro e ir para itália estudar, pois isso o fará cem vezes melhor. Para esses medíocres
(felizmente, hoje temos menos), o que
vale é a técnica, e não a emoção – até Van
Gogh passou por isso.
Castagneto quase volta para itália. D.
Pedro Augusto, da família imperial, lhe
encomenda uma obra para presentear o
encouraçado chileno Almirante Cochrane.
A tela, depois de pronta, é exibida a toda
a corte e à família imperial no famoso e
histórico Baile da Ilha Fiscal, última festa
da monarquia brasileira que, seis dias depois,
estaria extinta com a proclamação da
República. Nosso pintor passa a ser reconhecido
e respeitado.
Em novembro de 1890, ajudado por
diversos amigos, embarca para a França
(Bordeaux e depois Paris); é sua temporada
europeia, na qual encontra sua maturidade
como pintor e permanece lá por sete anos.
Volta ao Brasil e adquire, em santos, uma
moléstia que o enfraquece muito. Restabelecido,
dedica-se a pintar Paquetá, onde
passaria seus últimos anos de vida. em
1899, seu estado de saúde piora, agravado
pelo alcoolismo, que o impede de pintar.
desenha para sobreviver. É internado em
uma casa de saúde de Botafogo - Rua São
Clemente, 146.
Falece às 9 horas da manhã de 29 de
dezembro de 1900, sendo enterrado no dia
2 de janeiro de 1901. ninguém soube que
havia falecido um grande pintor, que não
imitou ninguém e que ninguém conseguiu
imitar. o maior marinhista brasileiro, a
quem Pancetti (sem tirar seu valor) deveria
pedir a bênção e beijar a mão.