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Mário Quintana adorava quindim com cafezinho, mistura poética de cores e sabores. Pelo menos uma vez por semana, eu lhe fazia essa homenagem solitária e deliciosa num bar da Rua Senador Dantas, em pleno coração do Rio. Quando soube da morte do querido poeta, há 15 anos, no dia 5 de maio de 1994, dirigi-me para lá a fim de cumprir mais uma vez o compromisso de encontrá-lo simbolicamente. Nesse dia, abri minha agenda e, entre um pedaço de quindim e um gole de café, li um inspirador pensamento seu: “Os que fazem amor não estão apenas fazendo amor, estão dando corda no relógio do mundo.”
Essa doçura transmitida por sua sensibilidade confortou-me ao saber que o poeta se fora, fazendo-me sobreviver à perda. Quatro dias antes, o país passava pelo traumático falecimento do bravo Ayrton Senna e quase nos encharcamos de tragédia. Com Quintana nunca senti tristeza, nem mesmo na ocasião de sua morte. Os sentimentos eram misturados, como café e quindim, mas o que predominou foi a ternura. “Amar é mudar a alma de casa”, escreveu em Prosa & Verso, e lembrei-me de seus versos:
...
O Menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...
E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria, junto à correnteza
Lavando as roupas de Jesus Menino...
Eras tu... que ao me ver neste abandono,
Daí do Céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!...
O gaúcho Mário de Miranda Quintana nasceu no dia 30 de julho de 1906 em Alegrete, cidade que, segundo Fausto Cunha, “ele colocou no mapa literário brasileiro”. Concluído o curso primário na escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, foi estudar no Colégio Militar de Porto Alegre, onde vem a desenvolver, anos depois, trabalho editorial na Livraria do Globo e na redação de O Estado do Rio Grande do Sul . Vence um concurso de contos promovido pelo Diário de Notícias , com “O Sétimo Personagem”, e publica poemas na Revista do Globo . Em 1930, passa seis meses no Rio de Janeiro alistado no 7º Batalhão de Caçadores, para participar da Revolução. No entanto, nunca colocou a poesia a serviço de ideais revolucionários. Em 1953, ingressa no Correio do Povo e, por vários anos, foi um dos tradutores da Globo, tendo vertido para o português obras de Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Maupassant e Balzac.
O poeta de Alegrete e cidadão de Porto Alegre tinha mesmo que transmitir alegria. E delicadeza e força e sedução e bom humor. Uma simplicidade lírica que envolve amplos sentidos, códigos existenciais decifrados em imagens, ritmos e rimas que mostram a maestria da técnica e a erudição do poeta. Um trabalho nascido de fontes populares, visando à expressão do cotidiano e sua transcendência, modificando-lhe, assim, dando-lhe a devida dimensão do sagrado.
CAUTELA!
Há dois sinais de envelhecimento. O primeiro é desprezar os jovens. O outro é quando a gente começa a adulá-los.
A quintessência de Quintana, seu lirismo sábio e menino, apontam um homem solitário e, ao mesmo tempo, querido; cético, mas cheio de humor; solteiro, mas repleto de paixões platônicas por Bruna Lombardi, Cecília Meireles e Greta Garbo. Musas que podem ser vistas no quarto que ele habitou e que hoje pode ser visitado na Casa de Cultura Mário Quintana, na Rua dos Andradas 736, onde funcionava o antigo Hotel Majestic, em Porto Alegre. Sedutor com a palavra e com o mundo, Mário foi escritor de fina prosa poética como a que se lê em Sapato Florido : “As folhas enchem de ff as vogais do vento...”
Pensador inteiro e independente - “Vivo dentro de mim.”
Publicou mais de 30 livros, entre eles: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Aprendiz de Feiticeiro (1950); Espelho Mágico (1951); Poesias (reunião); Antologia Poética (1966); Pé de Pilão (infantil); Caderno H (1973); Apontamentos de História Sobrenatural (1976); A Vaca e o Hipógrafo (crônicas); Esconderijos do Tempo (1980); Nova Antologia Poética (1981); Lili Inventa o Mundo (infantil); Da Preguiça como Método de Trabalho (1987); Preparativos de Viagem (1987) e outras maravilhas que o leitor pode escolher e se deliciar porque são melhores do que quindim.
A poesia é necessária
Título de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe ainda do que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética é sempre um esforço de auto-superação e, assim, o refinamento do estilo acaba trazendo a melhoria da alma.
E, mesmo para os simples leitores de poemas, que são todos eles uns poetas inéditos, a poesia é a única novidade possível. Pois tudo já está nas enciclopédias, que só repetem estupidamente, como robôs, o que lhes foi incutido. Ou embutido. Ah, mas um poema, um poema é outra coisa...
O último poema
Enquanto me davam a
extrema-unção,
Eu estava distraído...
Ah, essa mania incorrigível de estar
Pensando sempre noutra coisa!
Aliás, tudo é sempre outra coisa
segredo da poesia –
E, enquanto a voz do padre zumbia
Como um besouro,
Eu pensava era nos meus primeiros
Sapatos
Que continuavam andando
Andando
Até hoje,
Pelos caminhos deste mundo.
(in Preparativos de Viagem , 1987)
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