42 - JUL AGO SET 2009
 


» CONTO

O jogador que embolou o meio de campo
Léo João


A bola atravessou a quadra e foi parar no estacionamento. Era por isso que eles não gostavam de deixar qualquer um jogar. O cara tinha que mostrar habilidade, intimidade com a redonda. Afinal, ali era o Santa Helena Sports Stadium Coliseum, templo sagrado do futebol no condomínio.

Três na linha e um no gol, sem muito espaço para reservas. Coisa para quem pode. Mas lá estava a bola, isolada e perdida na garagem do outro bloco. Mico dos micos, humilhação suprema para aquele local do mais puro futebol-arte. Quem a fizesse cair lá tinha que, primeiro, ir buscar, segundo, sair do jogo, a regra era clara.

Só que o autor do chute disse que não ia. E agora? Marcão, que sempre era o primeiro a falar, protestou, dizendo não haver conversa. O bola-murcha tinha que buscar e fim de papo. O autor da proeza repetiu não ir de jeito nenhum. “Primeira vez e já quer sentar na janelinha”, disse agora Marcão, em tom mais elevado, pra se fazer ouvir bem. Mal-estar geral.

No time do perna-de-pau, alguém precisava se manifestar. Com a palavra, Pezinho: “Veja bem...” “Veja bem é o cacete!”, encerrou Marcão, partindo para cima do pereba, de dedo em riste, gritando: “Tu vai buscar agora, rapá!”

A turma do deixa-disso entrou em ação. Ramiro tratou de se esconder atrás de todos que pudesse. Ramiro, era esse o nome do pivô da história. Aquele que errou cinco chutes seguidos, e o quinto, como sabemos, deu no que deu.

Todo fim de tarde ele espiava o futebol da rapaziada e vivia seco por jogar, apesar de saber que aquilo não era para ele. Acompanhava lance a lance com toda atenção, cantava as jogadas para o vento e urrava sozinho nos golaços. Certo dia, vendo um dos boleiros saindo para a escola, não se conteve, criou coragem e fez o pedido fatal: “Futebol com vocês, posso?” O outro não sabia o que responder. Por isso mesmo, só respondeu duas semanas depois, após alguns debates acalorados com o resto da galera.

Marcão era radicalmente contra, o que nem precisava ser dito, pois Marcão era radical em tudo, mas foi voto vencido e Ramiro ia jogar sim. No dia em questão, o céu estava muito azul, e Ramiro pensou ser o dia mais bonito que viu desde sua chegada ao condomínio. Mas não comentou com ninguém. Acanhado demais, introvertido como o mais autêntico dos bichos-do-mato, Ramiro mal balbuciava um mero bom dia. Parecia ter medo de gente. Sua enorme dificuldade em expressar-se e aquela sua cara de coisa nenhuma afastava os que não tinham a dose a mais de paciência necessária para lidar com suas questões. Ou seja: todos.

O espírito de coletividade do futebol representava, então, uma espécie de diploma de vida para o pobre solitário. Mas ele tinha que zunir com a bola e estragar tudo. Na quadra, o jogo permanecia paralisado, e Marcão já não berrava sozinho. Agora a molecada inteira vociferava querendo jogar. Os times de fora também entraram na zona. Ninguém se entendia. Alguns pais começavam a aparecer nas janelas dos apartamentos mandando os filhos subirem, decretando o chuveiro mais cedo. Tudo por causa de Ramiro.

Aliás, o personagem principal do tumulto não estava mais ali. Na garagem, onde era para estar há muito tempo, Ramiro segurava a bola de futebol com sua famosa cara de coisa nenhuma. Um morador que acabara de guardar o carro passou a seu lado e comentou: “É brabo, né, Seu Ramiro, a garotada chuta a bola longe e você tem que parar sua faxina para pegar.”