Sempre fui alheia a ameaças infantis. Sou adepta da conversa, da explicação, dos argumentos infalíveis. Talvez por isso mesmo minhas filhas sejam crianças articuladas e que sabem dialogar quando é necessário.
Sempre achei o fim da picada ameaçar as crianças seja com o boi da cara preta, a cuca, o lobo mau ou qualquer outro anti-herói possível e imaginável. Já minha querida amiga Mercedes não está nem aí para isso. Do que ela não abre mão é manter seus filhotes embaixo de suas asas. E para isso acontecer ela contou com a companhia do velho do saco a vida inteira. Marina que o diga. Hoje ela tem 15 anos, mas só de pensar no velho do saco ela não saía da barra da saia da mãe no shopping nem por um super algodão-doce. E o Gabriel, hoje com cinco anos, está indo pelo mesmo caminho. O fato é que está dando certo. Nunca ninguém ali se perdeu da mãe.
O velho do saco deve ser um sujeito aterrorizante mesmo. Dizem que ele fica à espreita, esperando uma criancinha sozinha, que esteja bem longe da família, para dar o bote. De repente vem ele e tóim!, enfia a criança no saco e ela nunca mais verá sua mãe. Um horror, né? Jamais pensei em fazer isso com minhas filhas. Imaginem o trauma!!!
Mas acho que estou mudada. No último carnaval percebi aflorar em mim uma Vivien que eu não conhecia. Em pleno carnaval de rua, mais precisamente em Teresópolis, tudo animadíssimo, muita música, gente, confete, serpentina, palhaços, animadores em pernas-de-pau, bonecos gigantes... Era tanta informação que as crianças estavam enlouquecidas. Corriam pra lá e pra cá numa velocidade que eu comecei a ficar nervosa. Olhava pra cá, elas estavam catando confete. Olhava de novo, não estavam mais. Cadê, cadê??? Ai, meu Deus! Achei-as mais adiante e expliquei que elas três (minhas duas filhas e minha sobrinha) deviam ficar bem pertinho de nós, adultos, pois podiam se perder e blablablá... Não adiantou nada. Elas continuavam naquela correria infernal. Perdi todo mundo de vista. Eis que, de repente, gritei: “Olha o velho do saco!!!”
Primeiro fiquei abismada comigo. Como aquela ameaça saiu do âmago de meu ser? Seria eu uma criança traumatizada também? Será que havia, quando criança, sido ameaçada com o velho do saco?
Inerte em meus pensamentos, percebi que todas as meninas haviam voltado. Não é que deu certo? Não perdi ninguém, ninguém ficou traumatizado e ainda, de vez em quando, elas se lembram divertidamente do tal velho e riem. Estou com uma sensação de que acertei no código de conduta. Quando menciono o tal velho não preciso mais dizer que é hora de ficarem “coladas” em mim e nem tenho que explicar tudo de novo. Parece mágica!
E não é que a Mercedes estava certa?
Ah, tentei encontrar o velho para tirar uma foto para ilustrar a coluna, mas seu paradeiro não foi identificado até o fechamento desta edição.