41 - ABR MAI JUN 2009
 


» CONTO

O entregador de flores
Pablo Kaschner



Seu codinome era Beija-Flor. Não porque fosse neguinho ou meio avoado. Na verdade, a origem de seu apelido era um mistério, assim como seu nome de batismo, que devia ser muito feio, era o que todos supunham.

Beija-Flor bem que gostava de seu ofício. Não que o ordenado fosse lá essas coisas, mas trabalhar entregando flores tinha lá sua poesia. Fosse como porta-voz de amores platônicos que só eram mantidos graças ao sigilo do anonimato, fosse pelo papel de pombo-correio de falastrões que pretendiam criar uma falsa imagem de tímido-apaixonado, ele não se importava. O fato era que lhe agradava ser um office-boy de gentilezas. Tinha um prazer especial em observar a feição de quem recebia flores no momento exato em que elas eram oferecidas. De fato, o neguinho era meio avoado.

As campeãs absolutas na preferência de sua clientela eram as amantes, e ele já aprendera a reconhecer quando a destinatária era uma das vítimas do “golpe do dia seguinte”. Costumava ser assim: após uma tórrida noite de amor, rosas vermelhas para as amantes. Às esposas, a fumaça do cigarro. Romântico incorrigível, “Beija”, para as íntimas, se negava a compactuar com aquela cretinice. Dizendo segredos de liquidificador, ia fazendo algumas amizades. E, quem sabe, até algo mais...

- Ele está te traindo!

- O quê?!

- Te traindo. A pessoa que mandou essas flores é seu marido, não é?

- É sim, por quê?

- Nenhum marido manda flores para a mulher sem ser em alguma data comemorativa. Hoje é seu aniversário?

- Não.

- Aniversário de casamento?

- Não.

- Ele está te traindo.

- Mas como você ousa...

- É uma prova o que você quer? Essas outras flores aqui são do mesmo remetente, só que para o 801.

- Pro 801??? Quer dizer então que aquela...

- Isso mesmo.

- Ah, aquele canalha!

Tudo bem que o “Beija” era meio franzino, meio frágil até. Mas tinha lá seu charme, sobretudo com um buquê na mão. No 801, após tocar a campainha e uma linda moça de roupão atender a porta, ele abriu o cartão que acompanhava as flores e declamou o poema nele escrito.

- De tudo ao meu amor serei atento...

A mulher tomou um susto. Logo, esboçou um sorriso.

- ...antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto...

A cada verso, a moça olhava para aquele estranho e um desenfreado desejo começou a invadir seu íntimo.

- ...e em seu louvor hei de espalhar meu canto...

Um súbito calor que começou por seu peito pouco a pouco se espalhou por suas entranhas. Estranhas sensações.

- ...e assim quando mais tarde me procure...

Suas pernas, já bambas.

- ...mas que seja infinito enquanto dure.

Ela estava absolutamente entregue. Nem percebeu que falou...

- Me beija!

- Mas... mas o poema nem é meu. Eu só vim entregar estas flores.

- Eu sei que é do Vinícius, mas não importa. Me beija agora! Aqui mesmo, na porta!

O inimigo que fizera, de quem tirara a amante que mantinha sob seus auspícios, Beija-Flor nunca soube quem era, desconfiava que se chamava Vinícius. Todos aqueles que voam por aí, de galho em galho, se achando da floresta o leão, deviam saber que todo beija-flor tem seu dia de gavião.

E quando me perguntam do “Beija”, digo que saiu por aí, a desperdiçar seu mel, devagarzinho, flor em flor, vez em quando aguando o bom do amor.